
Não, o Brad Pitt não lhe ama. E não, ele não vai se casar com você. Pode soar duro, irônico ou até cruel dizer isso assim, logo de cara, mas às vezes a realidade precisa ser dita sem rodeios. Principalmente quando o preço da fantasia pode ser alto demais.
Nos últimos dias, um caso ocorrido no sul do país chamou atenção não apenas pelo caráter inusitado, quase cinematográfico, mas pelo alerta silencioso que carrega. Uma mulher foi até um pequeno aeroporto no interior do Rio Grande do Sul acreditando que encontraria o ator Brad Pitt. Segundo ela, os dois mantinham um relacionamento virtual, conversavam com frequência, faziam chamadas de vídeo e planejavam casamento. Para ela, aquilo era real. Muito real.
A situação mobilizou funcionários do aeroporto e a polícia, que precisaram intervir para explicar o óbvio: não havia voo algum previsto e, evidentemente, o ator não estava a caminho do interior gaúcho. O desfecho, felizmente, não envolveu prejuízo financeiro, nem violência. Mas poderia ter sido diferente. E é exatamente aí que mora o problema.
O episódio é mais um retrato contemporâneo de uma velha prática adaptada aos novos tempos: o golpe do amor. Uma fraude que não começa pedindo dinheiro, mas oferecendo atenção, carinho, escuta e promessas. Primeiro vem a conexão emocional. Depois, a confiança. Só então, em muitos casos, surgem os pedidos, as emergências inventadas, as taxas inesperadas, os problemas legais fictícios, as histórias cuidadosamente construídas para justificar transferências financeiras ou exposição a riscos ainda maiores.
O que torna esse tipo de golpe particularmente perigoso é o fato de ele não depender, inicialmente, de vulnerabilidade financeira, mas emocional. Pessoas solitárias, fragilizadas ou simplesmente abertas a uma história bonita acabam sendo envolvidas em narrativas que parecem improváveis para quem observa de fora, mas absolutamente coerentes para quem está dentro da relação. A lógica dá lugar ao afeto. O senso crítico vai sendo dissolvido aos poucos.
Há ainda um agravante moderno: a tecnologia. Hoje, não basta dizer “nunca viu a pessoa pessoalmente”. Chamadas de vídeo, áudios personalizados, fotos aparentemente espontâneas e até recursos de inteligência artificial criam uma falsa sensação de legitimidade. O argumento “mas eu falei com ele por vídeo” já não é garantia de absolutamente nada. A fraude evoluiu, e os golpes também.
Casos semelhantes pelo mundo mostram que nem sempre o final é apenas constrangedor. Há vítimas que perderam economias de uma vida inteira acreditando estar em um relacionamento com celebridades, militares estrangeiros, empresários ou investidores bem-sucedidos. Além do prejuízo financeiro, ficam marcas emocionais profundas: vergonha, culpa, isolamento e, em alguns casos, depressão.
Por isso, tratar episódios como esse apenas como curiosidade ou piada é um erro. O riso fácil esconde um problema sério de educação digital, saúde emocional e percepção de risco. Celebridades não iniciam relacionamentos aleatórios por mensagens privadas. Pessoas com vidas públicas não pedem sigilo absoluto, não evitam encontros reais indefinidamente e não precisam de ajuda financeira de desconhecidos.
O caso do aeroporto no Rio Grande do Sul termina sem vítimas aparentes, mas serve como um aviso claro. Nem todo perfil é quem diz ser. Nem toda história bonita é verdadeira. E, principalmente, nem todo amor virtual é amor, às vezes, é só o início de um golpe que ainda não chegou à fase do prejuízo.
Se alguém promete amor eterno antes mesmo de conhecer sua rotina, seus defeitos e sua realidade, desconfie. Se a história parece boa demais para ser verdade, provavelmente é. E se um dia você se pegar indo a um aeroporto esperar alguém que nunca esteve ali, talvez seja hora de pousar na realidade antes que o custo seja muito maior do que um constrangimento passageiro.

