9 de maio de 2026
Rodrigo Constantino

Os cúmplices de ocasião

O ministro Alexandre de Moraes atropelou prazos para encerrar logo o processo de Bolsonaro. (Foto: EFE/André Borges)

Nenhuma tirania se instaura num país sem a ajuda de parte da elite. Normalmente, essa turma aceita os abusos cometidos porque os primeiros alvos são seus desafetos e adversários políticos. Eles ajudam a abrir a porteira para o boi pegar um algo específico, ignorando que depois a boiada toda consegue passar.

Malu Gaspar ilustrou com perfeição esta mentalidade ao publicar em sua coluna: “Depois de superar o golpismo, Brasil precisa enfrentar falta de limites do Supremo”. Ela ainda confessou: “Embutido no raciocínio está o reconhecimento de que o tribunal, Alexandre de Moraes em especial, foi além de suas atribuições em vários momentos – e tudo bem, porque foi por uma ‘boa causa’, mas agora chega”.

Ou seja, a jornalista admite os abusos, mas se era para perseguir Bolsonaro, uma “boa causa”, então está valendo. Agora chegou o momento de contenção do Supremo, restando apenas combinar com os russos, chineses e seus admiradores na Corte.

A mesma Malu publicou reportagem hoje alegando que a PF e PGR veem caminho difícil para a extradição de Alexandre Ramagem, afinal, as imputações que pesam contra o deputado podem ser classificadas como “crime político”. Qualquer jornalismo sério ficaria espantado com isso, pois configura perseguição típica de ditadura. Aliás, a esposa de Ramagem virar algo de Moraes, sofrendo inclusive apreensão de celular, é prova de que estamos numa seara distante do Direito.

Hoje foi a vez de Pablo Ortellado bater no mesmo bumbo: “Condenação de golpistas tem de ser o fim de um ciclo de exceção”. Ele acrescenta: “Está na hora de encerrar os inquéritos contra as mobilizações antidemocráticas e de conferir transparência ao processo”. Chega a ser fofo ver essa turma defendendo ajustes após “excessos” do Supremo, só depois que o serviço sujo foi feito, ou seja, os bolsonaristas foram eliminados do jogo político.

É, além de muito cinismo, certa ignorância histórica sobre como funcionam ditaduras. Uma vez concedido o poder arbitrário, ele não volta ao normal do nada. Não se coloca o gênio de volta na garrafa depois de soltá-lo. Todos esses que, para pegar os bolsonaristas, passaram pano nos abusos supremos são seus cúmplices de ocasião. Quando ficar claro que é tarde demais para voltar ao normal, é bom lembrar que eles mesmos ajudaram a criar o monstro.

Fonte: Gazeta do Povo

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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