A performance partidária, com pitadas de ufanismo personalista e arrogante dos jornalistas dos dias de hoje não é um fenômeno messiânico recente.
O que temos agora é um tipo de ativismo mercantilista/salvacionista mais explícito e descarado sob a bandeira: “eu tenho a verdade e averdade os libertar”!
O bom jornalismo investigativo, pautado na dúvida, está em precipitada extinção. No Brasil é coisa rara.
Jornalistas e profissionais de mídia que aqui exercem a profissão de maneira honesta e não se curvam ao método contratual, anexado à folha de pagamento das tradicionais empresas de comunicação, contam-se nos dedos.
A internet é, para esses remanescentes do bom jornalismo, uma válvula de escape para o exercício da boa técnica jornalística e respeito à complexidade dos fatos.
O tipo de performance jornalística banalizado atualmente é recorrente do modelo de jornalismo norte-americano dos anos 40.
Houve um corte na performance dos anos 40 com a sacada ‘new journalism’ do Tom Wolf, nos idos dos anos 70/80.
Com o tempo, o modelo esfriou e o repórter investigativo independente se tornou um ator domesticado pelo patrão empresário, com a função específica de fazer a sua parte na consolidação do mainstream informacional.
Ben Hecht, foi um jornalista de enorme sucesso nos anos 40.

É dele a criação da personagem Hildy Johnson, a charmosa e inteligente repórter ‘superstar’ do Morning Post, na Chicago dos anos 40.
Até hoje, sem mesmo saber porque, esse ícone feminino do cinema se tornou um modelo invertido, submisso e cretino para jornalistas de lá, de cá e mundo afora.
Hecht ajudou a criar a imagem da mulher jornalista na literatura americana.
Sua carreira como repórter sobre a dura realidade da vida de Chicago, marcada por ótimas histórias pautadas na dimensão humana, fez de Hecht um destaque de primeira página.
No documentário “Ben Hecht:Shakespeare of Hollywood” o diretor destaca: “Se você vai falar sobre realidade, você tem que falar sobre a plenitude do caráter humano”.
Seu talento em contar boas histórias acabou puxando Hecht para Hollywood, onde se tornou o roteirista mais festejado da cidade.
Na opinião de críticos, Hecht foi um dos maiores escritores de diálogos da história do cinema.
Em 1940, ‘His Gril Friday’ estreou em todos os cinemas do país e se tornou um clássico.
O filme, baseado numa peça de sucesso de Ben Hecht e Charles MacArthur, teve um efeito concreto e real para as bases do feminismo atuante, que se sobrepõe às teorias e discurseiras ressentidas dos movimentos que surgiram na segunda metade do século XX.
Sua mestria em criar o personagem Hildy Johnson, um ícone feminino em meio à maioria masculina das redações da época de ouro do jornalismo de Chicago, foi consagrado no filme em que Hildy, ex-mulher de Walter Burns, um editor cínico e espertalhão, estereótipo que até hoje persiste nas redações, é a voz feminina contra o jornalismo mercantil.
O estereótipo Walter não se acanha em dizer: “se ele suspender a ação, nós apoiaremos seu nome para o senado”.
O toque de mestre de Hecht é fazer da superstar Hildy, uma pessoa que dedicou sua vida ao jornalismo, um personagem de caráter livre e desapegada à fama que, no auge da sua carreira, decide largar a profissão, contrariando as ordens do editor- chefe, com um diálogo sensacional:
Hildy: Quero ir para um lugar onde eu possa ser mulher
Burns retruca: tornar-se uma traidora do jornalismo, você é uma jornalista
Hildy: Uma jornalista? Agora, o que isso significa? Espiar por buracos de fechaduras, correr atrás de caminhões de bombeiros, acordar autoridades no meio da noite para perguntar se Hitler vai começar outra guerra, roubar fotos de velhinhas e vendê-las nas redações? Eu sei tudo sobre repórteres, Walter.”
Essa crítica de Hildy é focada na realidade dos jornais diários de Chicago, todos correndo atrás de muito dinheiro.
Hecht conhecia isso profundamente pois, era prática comum da época, jornalistas invadirem casas para roubar fotos de vítimas de acidentes ou homicídios para ilustrar o noticiário do dia.
Ele percebeu antes de toda gente que o jornalismo trilharia guetos obscuros para obter uma foto, um furo de reportagem ou um escândalo sensacionalista – como hoje, de maneira mais acintosa, se ganha uma informação privilegiada da polícia, de autoridades ou de um ministro da Suprema Corte – para preservar um método eficaz para vender ‘narrativas’ que sustentem os interesses de quem paga mais.

