Quem tem coragem?

Era uma vez, conta a lenda que adapto aos dias atuais, uma ilha paradisíaca habitada por ratos trabalhadores, honestos, leais e sinceros.

Na ilha não havia crimes nem injustiças, pois existia uma assembleia superior formada pelos ratos mais sábios da sociedade, que julgavam as contendas e nunca erravam. Quem cometera um crime, evento raro naquelas bandas, pagava o preço.
A vida seguia tranquila até que, não se sabe como, gatos insidiosos invadiram o plenário da tal assembleia, comeram os ratos sábios e ocuparam os seus lugares. Apesar desse evento perverso, os omissos ratinhos ilhéus não notaram o perigo que se avizinhava.
A ficha dos pacatos roedores só começou a cair quando os gatos, gulosos, conquistaram o espaço de seus pseudos concidadãos. Roubavam comida, surrupiavam bens, promoviam o suborno e até matavam um e outro rato menos saudável. Omissão de socorro, sabem como é.
A felicidade, que até então reinava na ilha, foi para o brejo. Logo os ratinhos começaram a murmurar que aquilo não podia continuar, já que o cotidiano de todos se transformara num inferno. Os rumores aumentaram quando, espertamente, os gatos começaram a legislar em causa própria.
Então, temendo a ruptura do tecido social que durante séculos lhes garantira o sossego, os ratinhos pagadores de impostos reuniram-se escondidos para inventar um plano e acabar com os gatos corruptos, que só não descobriram a iminente sublevação porque haviam acabado de se empanturrar com lagostas au café de la paix. Dormiam, a sono solto, o soninho dos injustos.
Confiantes que, anestesiados pela pança cheia, os gatos maus não prestariam atenção à balburdia – cada rato dava uma sugestão, todos falavam ao mesmo tempo – a reunião entrou pela noite a dentro.
Dona Maria Ratazana, irmã do João Ratão, aquele, coitado, que faleceu afogado na panela de feijão, sugeriu a compra de cassetetes para agredir os gatos. “Seu” Ratinho Joaquino, dono da padaria, achou que mais valia comprar veneno e colocar na comida dos invasores, que, segundo os jornais, era farta e muito cara. Dra. Rata Batata, pós-doutorada na Evolução Genética dos Gatos Cretinos, sugeriu algo definitivo: a contratação de snipers da ilha vizinha. Para alertar aos atiradores que os gatos estavam em ação, bastava amarrar um guizo no pescoço de cada um. O tilintar do sininho denunciaria-lhes a presença e os snipers, então, disparariam o tiro fatal. Enfim, a ilha voltaria à paz.
A audiência delirou, aplaudindo freneticamente a ideia. Já combinavam até quem iria comprar os guisos quando Madame Ratinha Velhinha, bisavó de várias ninhadas, colocou água na fervura:
– Quem se oferece para amarrar os guizos nos pescoços dos gatos?
A rataria se entreolhou cabisbaixa. Sabia-se simplória e covarde, sem coragem de chegar perto dos poderosos malfeitores.
Humilhados, os ratinhos se dispersaram silenciosamente.

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