Uma canção de gelo, fogo, água e lama


16 de abril de 2019. Acabo de assistir, ao vivo, o pronunciamento de cinco minutos do presidente da França, Emmanuel Macron, sobre a tragédia de ontem, o incêndio que devastou – mais ou menos – a catedral de Notre-Dame de Paris.
Pausa para lembrar que Nero nunca incendiou Roma, OK?
A fala de Macron, ontem, em frente à Notre-Dame, garantia a reconstrução da catedral. Concordei e continuo a acreditar nele. A questão é como, quando e quanto tempo levará esta façanha. O discurso de Macron, agora, me lembrou um ditado dos orgulhosos gauleses: “Impossível, não é francês”, traduzindo, “impossível” é uma palavra que não existe no dicionário francês. E saibam que o que não falta na língua francesa é palavra.
A catedral tem um sino, da época de Louis XIV, mas também outros que acabaram de chegar, feitos com a mesma arte e qualidade dos antigos. Mesma coisa para os tubos do órgão gigantesco. Macron acaba de garantir que Notre-Dame estará novinha em folha, “ainda mais bonita”, dentro de cinco anos; isso enquanto a maioria dos especialistas garante que é trabalho para décadas.
Atualizando o que escrevi, ontem. A primeira doação do primeiro bilionário francês, François Pinault, foi de 100 milhões de euros. Hoje, as doações já atingem 750 milhões. A Total igualou em 100 milhões. Bernard Arnault, da LVMH, resolveu dobrar a meta e doou 200 milhões. Madame Bettencourt, da L’Oreal também, com outros 200 milhões. O povo doou cinco milhões.
Uma ideia minha para ajudar. Quando “aliviaram” a Torre Eiffel, o excesso de ferro foi leiloado. Tem gente que possui um pedaço da torre em casa. Eu tenho um tijolo de granito que peguei na Champs-Elysées, quando a avenida foi totalmente reformada e calçada nos anos 1990. Por que não leiloar o “carvão” de Notre-Dame?
Voltemos aos milhões doados. Me pergunto-me-me-me onde estava tanta vontade de doar tanto dinheiro anteontem? A França é o País das Catedrais e dos Castelos. Tem gente, franceses, passando fome e outras necessidades nesta mesma França riquíssima. Daí, essa quase guerra civil, dos “Coletes Amarelos”.
Aliás, ontem, antes do incêndio, o pronunciamento de Macron, na TV, seria exatamente sobre os “Coletes Amarelos” que, todo sábado, há mais de um ano, protestam nas grandes cidades francesas. Em Paris, lutam fisicamente com a polícia e depois saem quebrando tudo, inclusive o patrimônio, como fizeram com o Arco do Triunfo.
Os bilionários franceses gostam de “brigar”, adoram uma boa disputa sobre quem é mais rico. O Coliseu deles costuma ser os leilões de arte. Depois, uma Fundação puxa um museu; um maior e mais rico que a outra. São os mesmos bilionários, sempre acusados de burlar impostos, de esconder dinheiro em paraísos fiscais e de mudar a sede de suas empresas para países mais “generosos”.
Enquanto isso, parece coisa de Brasil, mas muita arquitetura francesa está caindo aos pedaços, não por guerras, vandalismos ou incêndios, mas por falta de manutenção.
A semelhança para aí. Ainda não vi nenhum milionário brasileiro falar do Museu Nacional que também virou cinzas. Em compensação, alguns brasileiros já ofereceram doações à Notre-Dame. Entre eles, Lily “Banco” Safra, 10 milhões de euros. Fez ela muito bem, aqui, a doação acabaria no bolso de algum Sérgio Cabral ou Lula.
Caridade e solidariedade verdadeiras devem ser praticadas sem publicidade, ponto.
Alguns milionários franceses, inteligentes, cultos e amantes do patrimônio, compram castelos por um punhado de dólares, euros. Uma mixaria mesmo! Isso porque, depois, a restauração dos castelos e de igrejas custa uma fortuna. Terminada a longa restauração, vem a manutenção, trabalho hercúleo sem fim.
Geralmente, quando restaurados, estes espaços maravilhosos são abertos ao público, aos turistas. O ingresso, as visitas guiadas, geram os recursos para a diária e eterna manutenção.
Uma das doações milionárias para a reconstrução da Notre-Dame é bem original, bonita e polêmica: uma selva de carvalhos, para a reconstrução do teto de 900 anos que queimou em duas horas.
E aí mora o “problema”. O teto tinha tanta madeira que o apelido da carpintaria de Notre-Dame era “floresta”. Floresta que continha a madeira de carvalhos de mil anos!
Ora bolas! Perguntem a qualquer múmia ou faraó, há cinco mil anos. Um dos grandes avanços da arquitetura medieval europeia foi o domínio da pedra, substituindo a madeira. Ontem vimos isso. As pedras continuaram, mesmo degastadas pelo tempo, mas a madeira foi-se e foice.
Que Notre Dame seja reerguida, em cinco anos ou 200 anos, como a original, tudo bem. Mas uma coisa é certa. Ela nunca será a mesma. E isso é bom e normal. Assim como as pedras substituíram a madeira; os mesmos franceses, há muito, dominam o concreto, o ferro e o vidro. Os novos cartões postais de Paris e principalmente a Pirâmide do Louvre, mesmo sendo obra de um arquiteto sino-americano Ming Pei, é apenas o exemplo mais evidente da maestria francesa com estes novos materiais. E mais, o que queimou e se perdeu na Notre-Dame, ficava sob o teto, pouquíssimos privilegiados podiam ver e viram a linda armação em carvalho. A carpintaria era invisível aos mortais.
Agora, uma variação sobre o mesmo tema.
1069 perdões, pelo trocadilho infame, mas ontem, no calor da luta, esqueci, propositalmente de falar sobre os bombeiros.
Bombeiros, estes anjos em carne, osso e ferro. Os bombeiros que, em Brumadinho, em Paris ou no 11 de Setembro, limpam as piadas de Deus e as cagadas dos homens.
Os bombeiros de Nova York morreram no fogo para salvar muitas vidas. Os de Brumadinho, mergulharam na lama. Os de Paris, sem medo, escaparam incólumes, felizmente, apenas um se feriu.
Mas não importa. Estes caras deveriam, no caso do Brasil, ganhar decentemente e, no mundo inteiro; antes, durante e depois de catástrofes, receber todas as honras e homenagens. Ontem, eles eram 400 e foram aplaudidos. Todos merecem muito mais.
Tem coisa pior e mais triste do que o fogo de ontem? Claro!
Diariamente, no mundo inteiro, temos milhares mortos e feridos por guerras; temos e vemos epidemias, fome e refugiados. Lamentável. É a Banalidade do Mal. A gente se acostuma e fica mais triste por uma igreja queimada. Um sentimento horrível porque é natural em uma coisa horrível: o ser humano.
O mesmo ser humano que também consegue ser solidário, voluntário, bombeiro e que, um dia depois do desastre, aumentou as vendas do livro “Notre-Dame de Paris” (O Corcunda de Notre-Dame), de Victor Hugo, obra que, como escrevi ontem, fez a fama mundial da catedral.
PS: O título desta crônica não é para fazer propaganda da série “Game of Thrones”, baseada no lindo nome dos livros, “A Song of Ice and Fire”, de George R.R. Martin.

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