21 de maio de 2022
Walter Navarro

Um chamado de fogo e gelo


“The Winter is coming”. Pelo menos, hoje, agora, em Barbacena. 10 de maio de 2019. 20h53.
O frio está chegando, entristecendo corpos e almas. Ainda assim, guardo as janelas abertas, apesar das grades de ferro. Saudades do verão e do Horário de Verão. Saudades de…
Trabalhei o dia inteiro. Mentira, escrevi o dia inteiro.
Muito depois, para relaxar, fui ao YouTube ver coisas.
Acabei caindo num “Roda Viva”, com Lobão, em 2013. Gosto muito do Lobão. Gosto muito de inteligência. Me identifico, kkkkkk.
No final do “Roda Viva”, depois de Lobão falar muito sobre política, música, drogas e prisão; no cardápio do mesmo Youtube, outros vídeos dele, à la carte.
Um me chamou em especial: “Me Chama (Por trás da Canção) Canal Bis”. Tipo, os bastidores da canção. Adoro bastidores, conhecer a gênese das coisas belas e infindáveis.
14h30 minutos, com Lobão, Marina e outros depoimentos.
Devia ser 1984. Lobão conta que sua mãe tinha acabado de morrer. Suicídio, como o pai dele, antes dela.
Lobão namorava uma holandesa, Alice.
Para desanuviar, resolveram ir para a Holanda. Tipo “Lobão com Alice no País das Maravilhas e dos Paraísos Artificiais”.
Como meu pai dizia e minha odiava ouvir, “Desgraça pouca é bobagem…”.
Na Holanda, morre o pai de Alice.
Ela tem que ficar lá e Lobão resolve voltar com todo o pacote: o luto pela mãe, pelo pai de Alice e, claro, pela separação da mulher amada. Tudo luto, um pior que o outro.
Lobão voltou para o Rio de Janeiro, fudido, sem dinheiro, coberto de dores.
Passava a pão com mortadela. Luz e telefone cortados por falta de pagamento.
Por incrível, chovia e fazia frio no Rio. Frio de Janeiro em junho ou julho.
E ele naquele bode brabo.
Sozinho em casa, duro; vontade falar com Alice, sem poder.
Pega o violão ou a guitarra e começa a dedilhar, pensando em Alice: “Chove lá fora e aqui, faz tanto frio. Me dá vontade de saber aonde está você, me telefona, me chama, me chama, me chama”.
História bonita.
Acho que assim nascem as belas artes e obras primas. Na sinceridade, ainda que no sofrimento. Talvez, principalmente no sofrimento.
O cara está sozinho, com saudade da mulher. No escuro, duro, com fome e sede.
É exatamente quando a gente descobre que “nem sempre se vê, lágrimas no escuro, lágrimas no escuro. Lágrimas, cadê você”.
Que coisa triste e linda. Verdadeira, desesperada. Simples, lógica.
Que atire o primeiro lenço quem nunca chorou gritando que “tá tudo cinza sem você, tá tão vazio e a noite fica assim porque… Aonde está você, me telefona”.
Pouco depois ou dia seguinte, um amigo chega na casa do Lobão, que resume a história. O amigo pede pra ouvir a música. Lobão diz que não, que era besteira, que só não rasgou a letra porque esqueceu ou porque nem lembrou de jogar fora.
Ainda bem que amigos existem para insistir. Lobão canta “Me Chama” e o amigo, de cara, diz: “Cara, tá doido? Essa música vai arrebentar, é demais”.
Lobão então vai e oferece a canção à amiga Marina (Lima).
O resto da história, o Brasil que gosta de música de verdade, conhece.
“Me chama, me chama, me chama”.
Ah a força do amor que ergue e destrói coisas belas!
Porque “nem sempre se vê mágicas no absurdo, mágicas no absurdo”.
PS: Pior, só quando a gente tem luz, telefone e mesmo assim ela não te chama. Porque Alice não mora mais aqui.
Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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