5 de março de 2024
Colunistas Walter Navarro

Onde Gal possa me ouvir

Hoje não vou falar de política.

Por falar nisso, nunca ouvi as posições políticas de Gal Costa, mas faço umas 51 ideias sobre em quem ela votou mês passado; sempre cercada das péssimas e conterrâneas influências de Velhos Baianos gagás. Mas deixa pra lá!

Porque nossos ídolos não são os mesmos, pelo menos os meus, há bem mais de quatro anos que não escuto e curto os medalhões da MPB.

Infelizmente, aposentei minha enorme coleção de vinis e CDs, com as melhores músicas brasileiras, trilha sonora de nossas vidas mortais.

Por exemplo, Chico Buarque. Na Síndrome da Abstinência, uma vez por ano, ainda escuto o que eu adorava, admirava, venerava, mas não é mais a mesma coisa. O efeito da droga passa rápido e sou obrigado a apelar para o contrário do que aprendi com ele: “Pai, aproxima de mim este cálice de vinho tinto”. E, na falta de um Bordeaux, pode ser um argentino, chileno, uruguaio.

Para substituir Chico, Caetano, Gil et caterva; para preencher o vazio que ficou, bruscamente, há quatro anos, só tenho um vício: “Bolsonaro Acústico MTV”, com seus maiores sucessos: “Um Verme Pra Chamar de Seu, Mesmo Que Seja L”; “Se Gritar Pega Ladrão, Não Fica Um Petista”, “Vai Trabalhar, Vagabundo do PSOL”, “Gleisi e o Zepelim”, entre outros clássicos.

Espero ansiosamente, ano que vem, se deus quiser, o Volume 2, com novas pérolas: “Apesar de Você, STF”; “A Volta do Boêmio Patriota”; “Eu Voltei Que Aqui é Meu Lugar” e “Ópera dos Malandros – Último Ato”, entre outros futuros clássicos.

Ops! Mantive minha promessa. Não falei de política, só de música para, enfim, chegar ao tema e homenagem de hoje: Gal.

Elis, 22 mil perdões, eternos como você! Você, que já se foi há 40 anos…

Gal! Que cotovia! Que bom gosto! Quantos bons momentos ela embalou com sua maravilhosa e maviosa voz.

Calma! Não vou citar tudo de lindo que ela gravou, umas 500 músicas. Mas sem pesquisa, quero comentar algumas canções.

“Vapor Barato”, com “Flor da Pele” e Zeca Baleiro. “Aquarela do Brasil”, que hoje deve estar proibida porque é muito verde e amarela. “Sua Estupidez”, que sempre foi a minha. “Coração Vagabundo”, que sempre foi o meu. “Modinha para Grabriela”, a da novela, de Dorival Caymmi. “Tema de Amor de Gabriela” com meu único ídolo, que ainda é o mesmo, Tom Jobim. Por fim, talvez meu disco favorito, “Baby”, de 1983, porque tinha: “Mil Perdões”, do Chico, um clássico inspirado em Nelson Rodrigues; minha favorita, “Eternamente”, do Tunai e claro, “Baby”, que batizou o disco.

“Eternamente”, obra prima do saudoso Tunai, irmão do mestre João Bosco: Coisa mais linda! Que letra! Que arranjo! Que voz!… Mas, repito, de 1983!
Muito anos depois, em 2002, Gal me surpreendeu pela última vez, com outra coisa linda, “Onde Deus Possa Me Ouvir”, de outro saudoso, outro mineiro – sem bairrismo – Vander Lee.

O foda de tantos saudosos juntos, incluindo Gal, hoje, 9 de novembro, é lembrar que, além dos nossos ídolos não serem os mesmos, estão morrendo. O que significa que nós também estamos chegando ao fim.

Gal minha chérie honey baby, me perdoa, que já te perdoei. Descanse em paz, de preferência, numa rede, numa praia da Bahia, com água de coco, uma caipirinha ou Champagne.

Muito merci, por tanta beleza e tanta voz, tanta poesia e arte numa mulher só. Ah! Um beijo em Dorival e João Gilberto.

E onde você puder me ouvir, te devolvo: “Meu amor; deixa chorar até cansar, me leve pra qualquer lugar, aonde Deus possa me ouvir. Minha dor, eu não consigo compreender. Eu quero algo pra beber, me deixe aqui, pode sair. Adeus”.

PS: Na ilustração, a capa mais gostosa de Gal, mesmo vermelha e sem falar de política, claro.

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *