26 de fevereiro de 2024
Colunistas Walter Navarro

God, stop! In the name of love

É…
“Toda vez que um justo grita, um carrasco o vem calar; quem não presta fica vivo; quem é bom, mandam matar”. (Cecília Meireles – “Romanceiro da Inconfidência”).

Escrevo dia 10, mas só vou postar dia 11, talkey? Afinal, o que é raro é caro. Passei meses sem escrever e, de repente, este é o terceiro texto seguido.

Ontem, dia 9, escrevi sobre a Gal. Texto ilustrado com foto da capa do disco “Índia”, assinada pelo saudoso amigo, Antônio Guerreiro, como me lembrou/cobrou outro amigo, ainda bem, muito vivo, Pedro de Aguinaga.

Postei primeiro no meu Facebook, onde pouquíssima gente tem lido, porque está “meio censurado”. Sim, minha gente, a censura voltou e me tirou para bailar.

Aliás, o próprio Facebook, me botando de castigo, disse que ia colocar minhas postagens no “fundo do feed”. Trocando em miúdos, tomei Doril e agora sou o cocô do cavalo roubado do Ladrão! Ladrão com L…

Em seguida, comecei enviar texto e foto pelo WhatsApp. Enviei de cinco em cinco, porque é proibido mandar mais que cinco por vez. Sim, minha gente, o limite de cinco também é uma forma de censura, um convite à preguiça e à desistência que não deu certo.

Assim que terminei minha longa lista, mais de uma hora depois, fui ler respostas e comentários. Muita gente pedindo para eu escrever sobre o Rolando Boldrin que morreu no mesmo dia 9, imagino, depois da Gal.

Pedi desculpas e expliquei que crônica, obituário, é para quem chega primeiro; para quem morre primeiro.

Na verdade, seria cansativo, escrever duas elegias, dois elogios seguidos, mas não impossível.

Na verdade, verdade mesmo; não escrevi porque, urbanoide convicto que sou; nunca tive a mínima intimidade com o trabalho de Rolando. Respeito, mas nunca admirei, nunca procurei, achava até chato, sinto muito. Não é minha praia. Sem falar que não conseguia levar o nome dele a sério. Sempre me lembrava do Rolando Lero, aquele do “Amado Mestre, Indefectível Guru”… E sem citar “La Chanson de Roland”, um poema francês do Século 11, pode?
Boldrin gostava de gravar vídeos recitando textos. Um deles, de Bertolt Brecht, muito famoso, que cai como uma luva nestes dias de chumbo grosso. A seguir um trechinho.

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política, nasce o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

Quem diria! O feitiço de Brecht virando contra o feiticeiro!

Mas vou me redimir, falando de outro cara, Paulo Jobim. Sim, o filho do Homem, bonito como o pai, Tom! Com Paulinho sim, cometi imperdoável falha porque, apesar de muito mais jovem que Rolando e muito mais velho que eu, 72 anos, falava minha língua, aquela do “asfalto que cerca o Jardim Botânico”.

Deve ser foda ser filho de Tom Jobim, um dos maiores compositores do mundo, mas… mesmo sem o dom e a exuberância do pai, deixou sua marca, em músicas bonitas. Em especial uma, sua estreia e depois outra, que virou duas. Explico.

A primeira é “The Mantiqueira Range”, num dos meus tesouros favoritos, “Matita Perê” (1973), o disco mais Villa-Lobos e Guimarães Rosa de Tom.
Uma beleza que vai de “Águas de Março” a “Nuvens Douradas”; passando por “Ana Luiza”, “Ângela” e óbvio, a estupenda “Matita Perê”. Não são músicas, mas sopros de Deus, fazendo o diabo dançar!

A segunda mora em outra obra prima de Tom, “Urubu” (1976), sim, o que tem “Lígia”, entre outras delícias jobinianas, pasmem! Entre elas, uma ostra cheia de pérolas, chamada “Valse”, instrumental, assinada por Paulo Jobim. Música clássica, carioca, no melhor estilo sinfônico de… Tom Jobim. A música é tão linda e boa que, dois anos depois, com letra de Ronaldo Bastos, conseguiu destaque num disco recheado de ouro barroco, “Clube da Esquina 2”, de Milton Nascimento. Com letra, ficou ainda mais bonita e melancólica, com o título feio de “Olho d’água”. Prefiro “Cruz das Almas” – também na letra de Ronaldo – mais Bernanos, mais Barbacena…

Sem pirâmide, Paulinho deve ter sido embalsamado, porque morreu dia 4 e só foi enterrado dia 8, um dia antes das mortes de Gal e Rolando; o filho Daniel estava no exterior.

Paulinho deve estar no mesmo túmulo do pai e do irmão João Francisco, que morreu aos 18 anos, em 1998, num acidente de carro.

Certa feita; procurei e custei a achar o túmulo de Vinicius de Moraes – amigão e parceiro de Tom, inclusive morrendo com a mesma tenra idade, 67 anos.

Foi no cemitério São João Batista, Rio – aventura que me rendeu três crônicas, ainda inéditas, em algum notebook estragado. No meio do caminho, achei o imponente túmulo de Tom e João, na aléia principal. Salvo engano, em granito rosa, ao lado do inusitado: a última morada de Luís Carlos Prestes, o único comunista de verdade que o Brasil teve.

Então, caro Paulinho, aqui, minhas homenagens e minha admiração, não como um sopro de Deus, mas como a pequena valsa de um homem simples como você e que, mesmo urbanoide, também é um amador e aprendiz das pequenas e boas coisas da vida, como os rios, peixes, urubus, passarinhos e o Jardim Botânico, que você e teu pai tanto amaram e elevaram como montanhas.

PS: Diga ao Tom que ele ainda me deve uma noite de piano e uma madrugada de charutos e whisky. Mas, sem pressa, se God quiser. Amém!

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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