28 de maio de 2022
Walter Navarro

O Museu da Nossa Lepra


Já que ninguém me leva a sério, resolvi voltar a 2014 e pescar algumas citações de Arnaldo Jabor, falando ao telefone, a cobrar, com Nelson Rodrigues, no Além.
“Os distraídos talvez não tenham percebido, mas o Brasil acabou…”.
“Que ninguém se engane, o Brasil é isto mesmo que está aí…”.
“O que devo fazer? Tomar cianureto ou Champagne?”.
“Nunca antes o Brasil teve a chance luminosa de ver nossa própria cara! Estamos entendendo que a História marcha pelas brechas, pelos buracos de cupim…”.
“A História é um botequim de pé sujo…”.
“A Esperança é o mais sórdido dos sentimentos…”.
“O Brasil é mais complicado… O sujeito e os países só se salvam se assumirem a própria miséria, a própria lepra! Em vez de reclamar, vocês deviam se agachar e beber a água da sarjeta! Ela é a salvação!”.
Já que mesmo citando faróis, continuam não me levando a sério, façamos um pouco de Turismo que, para mim, é a salvação da lavoura e da Pátria.
Nova York tem a Estátua da Liberdade. Londres tem o Big Ben. Paris tem o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel. Roma tem o Coliseu. Isso, para não entrar em outros lindos detalhes que atraem milhõe$ de turistas, o ano inteiro.
OK. Lisboa tem a Torre de Belém, Madri tem o Museu do Prado. Berlim tem o Portão de Brandemburgo, mas, aqui entre nós, é pouco. Não são a cara, o símbolo destas lindas capitais.
Achei um desperdício a derrubada da Bastilha, em Paris e do Muro de Berlim que, hoje, seriam colossais monumentos turísticos.
Bobagem dizer que os alemães estavam destruindo o muro, como um símbolo de opressão, do cruel comunismo. Este sentimento de raiva passa e passaria mais rápido se, o muro, intacto, atraísse turistas, logo, dinheiro. Seria uma enorme e perfeita vingança, transformar um símbolo do comunismo em instrumento do capitalismo. Bastaria abrir portas no muro para o trânsito, como derrubaram muros religando as linhas do metrô.
Quando o Muro de Berlim caiu e foi caído, em 1989, escrevi a alguns amigos no Brasil, dando, entregando a ideia de “importar”, pedaços do muro, eles nem riram, simplesmente ignoraram.
Meses depois, em Paris, três enormes blocos do Muro de Berlim estavam expostos em Paris. Anos depois, por acaso, em Manhattan, Nova York, vi outro bloco do muro. Todos, como monumentos turísticos.
Coisa semelhante aconteceu na Ucrânia, berço e celeiro da antiga Rússia; cativeiro das mais lindas louras do mundo. Quando a União Soviética virou pó e a nova Rússia, em 1991, a Ucrânia, para se livrar da Herança Maldita, destruiu, retirou ou adulterou centenas de estátuas de Lênin.
Estátuas lindas e gigantescas, esculpidas ou fundidas em metal. Outro erro. Não só a Ucrânia, como outros ex países da Cortina de Ferro, deveriam ter feito parques temáticos, com estas lições de História. Seria outra vingança do capitalismo sobre o comunismo.
Pelo menos na Polônia, os horrendos Campos de Concentração da 2ª Guerra Mundial – como Auschwitz – símbolos do Holocausto, não foram destruídos, mas perfeitamente conservados. Hoje, além de ser a memória do Horror, geram milhões, atraem milhares de turistas…
Por falar em Horror e voltando à Roma, Fórum e Coliseu, na Toscana, em várias e pequenas cidades, existem os Museus da Tortura. Aliás, várias cidades pelo mundo têm um Museu da Tortura, seja ela da Idade Média, da Inquisição, etc.
Barbacena tem um Museu da Loucura… Não vou perder tempo comentando porque este e outros “museus” de Barbacena e até de Belo Horizonte são a própria tortura.
Museu sem acervo não é museu.
Museu que tem acervo, no Brasil, vira cinzas. Museus inúteis, como os da Palavra e do Futuro, pululam. Quem não tem História e memória inventa mentiras e até futuro.
Mas voltando ao tema, o Rio de Janeiro é a cara do Brasil, lá fora. Então, o horroroso Cristo Redentor, é nosso cartão postal no Exterior. Bonito é o Corcovado…
O que sobra como vitrine do Brasil, além das girafas da Amazônia? Praias, que muitos países têm, até mais bonitas e a exuberante natureza, sem qualquer infraestrutura.
Pelas Barbas de Netuno! De repente, o texto já ficou enorme e nem cheguei ao tema principal, nossa salvação, nossa lepra, o Museu da Corrupção. Continuo depois, se houver otimismo.
Enquanto isso, vou ali beber água da sarjeta. Ops! Sem chuvas, nem isso temos, no lugar da sarjeta, cerveja.
PS: “O Otimismo é uma falsa esperança usada por covardes e imbecis”. Georges Bernanos, francês de Barbacena.
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Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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