21 de maio de 2022
Joseph Agamol

A violência "whatsappiana" do Rio

Como meus amigos sabem, sou um carioca exilado no interior de São Paulo, e há mais de três anos não volto à minha cidade – da qual, diga-se de passagem, não sinto quase falta alguma.
E esse “quase” é só porque sinto saudade de umas poucas, pouquíssimas coisas no Rio:
– a feijoada de um certo trailer na Mangueira e da Spaghettilândia, na Cinelândia. Sim, o lugar se chama – ou chamava – Spaghettilândia e vendia uma feijoada maravilhosa às sextas e sábados. Melhor ainda a de sábado, que era a sobra da de sexta.
– o bolo de chocolate caseiro, com calda quente, servido numa loja no subsolo do prédio Avenida Central, na Rio Branco, Centro do Rio. A loja se chama – ou chamava – “Tabacco”. Sim, vende apetrechos para fumo mas também serve cafés especiais incríveis e esse bolo inacreditável.
Pronto. Basicamente é isso. As outras coisas das quais eu poderia sentir falta no Rio já não existiam mais quando eu ainda morava lá, num prédio gigante na Rua do Riachuelo, centro da Lapa:
– o frio nascente e ansiado do outono carioca em maio.
– o caminhar em tranquilidade pelo Centro Antigo e suas igrejas, o Mosteiro do Largo da Carioca, as cotias do Campo de Santana, os gambás do Passeio Público.
Tudo isso ainda está lá: a tranquilidade é que se extinguiu como um lobo da Tasmânia ou um leopardo do Himalaia.
Afugentando a todos que amam essa cidade.
Porque a violência do Rio assusta mais do que as outras metrópoles. Sabem por quê?
Porque é uma violência assíncrona.
Como o WhatsApp.
Não entenderam? Eu explico.
Em outras cidades quase tão ferozes quanto o Rio, a violência pode ser conjurada, um pouco como um domador segurando um leão.
Você sabe que, em Sampa, BH ou Porto Alegre, há lugares a evitar e, se você o fizer, ficará mais ou menos a salvo.
Para usar a metáfora das comunicações, evitar a violência nesses lugares é como evitar um telefonema indesejado.
Para que haja a comunicação, é preciso a sincronia: é preciso que você atenda a chamada.
No Rio não.
No Rio, a violência não respeita áreas pré-mapeadas como “seguras”. Você pode estar numa praia, no metro quadrado mais caro do país, e ser atingido.
Ou no ponto turístico mais famoso e ser apanhado.
Ou na balada – droga, “balada” não, “night” – mais badalada e ser pego de surpresa.
A violência do Rio é whatsappiana porque, assim como as mensagens do aplicativo, é assíncrona.
Ela pode alcançá-lo literalmente em qualquer lugar.
Quer você queira atender – ou não.
O meu Rio hoje é uma metáfora violenta para um aplicativo de comunicações.
E eu sinto falta de um tempo em que eram os orelhões que compunham a paisagem carioca.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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