O Kindle de Literatura não é um Prêmio Sério

O Prêmio Kindle de Literatura está mais para um tipo de “kind”, “joke”; uma brincadeira de mau gosto e incompetência. E de ignorância também. No caso, minha ignorância, não no sentido de burrice, mas de ignorar, desconhecer, estranhar.

A explicação é complicada e detalhada, mas rima até com atrapalhada e engraçada.

Já vi uns ótimos 1069 filmes sobre livros, escritores, editores e, principalmente, a luta de escritores geniais pastando e lutando para publicar seu primeiro livro.

Um dos melhores é “O Mestre dos Gênios”, a “biografia de Max Perkins, um dos editores literários mais famosos do mundo. Apostando em jovens talentos, ele descobriu nomes fundamentais da literatura como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolfe”. No caso, Perkins era mais que um editor, era um pai, um psicólogo, amigo…

Temos aqueles filmes clássicos, onde o livro é recusado por várias editoras e, no fim, publicado por pequena editora, vira um grande sucesso ou um clássico.

Temos filmes sobre roubo de ideias, manuscritos perdidos, achados e publicados por outra pessoa. Filmes sobre plágios, escândalos e crimes literários.

Tudo isso para lembrar que, nem assaz antanho e alhures, quem quisesse ver seu livro publicado, “bastava” ficar enviando manuscritos à várias editoras, colecionar um monte de “não, obrigado, sinto muito, mas…”; até conseguir publicar; um êxito ou fracasso.

Mas isso é do tempo do onça, quando escritores enviavam mil páginas datilografadas pelo correio.

Hoje, nos tempos modernos, tudo é virtual, automatizado; mais frio e indiferente. Inviável e impraticável. Por causa de um detalhe; poucas informações ou informações em excesso. Depois, o descontente que “vá reclamar com o Bispo…”.

Como rabiscaria o Henfil, sobre criatividade e potencialidade: “a inspiração é um cachorro preto, um Dobermann bem aí atrás de você”.

No meu caso, a criatividade, a inspiração, foi um vírus. A pandemia e o confinamento me tiraram do pecado da Preguiça e pronto, resolvi participar do tal 5º Prêmio Kindle de Literatura 2020.

O mais fácil foi escrever o livro, mais de 100 páginas, em mais menos duas semanas. Nada de crônicas ou contos do vigário, mas um romance. Aí sim, o prazo foi um Dobermann bem atrás de mim.

Repito. O mais fácil foi escrever. Mas, aí veio a inscrição…

Coisa das mais esdrúxulas, um labirinto de “logins”, senhas, dados mil e gerais; infinitos passos me levando ao abismo.

É Kindle/Amazon, OK?

Dois amigos, do Rio de Janeiro, até tentaram me ajudar, como puderam. Mas como ensinar a sair do labirinto quando a gente não sabe nem onde é a entrada?

E claro, nem na pandemia as pessoas têm tempo e paciência para isso. E ninguém ia pegar minha mão e fazer a inscrição para mim. Mesmo porque, os dados são meus, inclusive os sigilosos.

Ou seja, tudo é feito para complicar ou para não ser feito. Acho que vou escrever outro livro, um comédia de horror, com este tema…

Primeiro, para inscrever o livro, você tem que “publicar o livro” virtualmente, através do site e preenchendo vários e tortuosos formulários. Até a capa eu fiz (improvisei).

Como tudo no Brasil, o fim vem antes do meio. “Eles” te obrigam a publicar antes de vencer o concurso; a preencher dados que nem tens! E aí de quem ousar não saber o que não tem ou não sabe.

Várias siglas, enigmas, inquisições e dúvidas não esclarecidas depois, você (eu) crente ter conseguido a proeza de concluir a corrida com obstáculos; salva tudo, dá um clique final e lê na tela: “Concluído com Sucesso”.

Até abri uma garrafa para comemorar a vitória, certo de que, depois de ralar, alguma cagada eu tinha feito ou sido obrigado a fazer.

Não deu outra!

Com todo o aparato, com todo o suposto “savoir faire” Kindle/Amazon, eles são incapazes de mandar um vulgar e jurássico e-mail para, simplesmente, confirmar uma complicada inscrição.

No lugar da confirmação, 10 dias depois do prazo terminado, aí sim, DEZ DIAS depois, recebi um e-mail de Pirandello ou Ionesco:

“Olá, Walter Navarro,
Com a inscrição no Kindle Direct Publishing, você deu o primeiro passo para publicar e levar suas ideias para a imaginação dos leitores. No entanto, antes de publicar, você deve seguir algumas etapas:

1. Preencha os detalhes da sua conta:
2. Leia todas as nossas dicas para começar.
Em seguida, acesse a sua Biblioteca KDP e comece a publicar. A publicação leva menos de cinco minutos e seu livro aparece nas lojas Kindle de todo o mundo de 24 a 48 horas.
Boa sorte,
Kindle Direct Publishing da Amazon”.

O “Boa sorte” deles me lembrou os dísticos das Catacumbas de Paris. Veio com gosto de Dante, nos infernos de “A Divina Comédia”: Vós que entrais, abandonai toda a esperança…

Fiz tudo de novo…………. Tanto fiz que vou poupá-los da tortura dos novos detalhes.

Consegui até mesmo falar com “gente de verdade”, mas estrangeiros que falam e entendem o português, mas estão longe de compreender e resolver o problema. Cercando Lourenço!

Perdi mais de uma hora, do meu querido 2020, pulando de galho em galho da dupla Kindle/Amazon.

Recebi mais dois e-mails tentando me ajudar, claro, depois do prazo vencido, depois que a ajuda não mais servia. Poupá-los-ei também do papo-aranha, deixo apenas o final da mensagem do Gabriel Eduardo do Kindle Direct Publishing:

“…Como o livro não foi publicado não é possível considerá-lo para a edição desse ano.
No próximo ano teremos uma nova edição então seria possível concorrer publicando o livro.
Para obter mais informações sobre o concurso, visite:
https://www.amazon.com.br/premiokindle
Espero que estas informações tenham ajudado!
Por favor me escreva, caso tiver alguma dúvida.
Desejo-lhe muito sucesso com seus livros e um excelente final de semana!
Seus comentários nos ajudam a melhorar nosso serviço. Reserve um minuto para classificar sua experiência conosco hoje clicando no link de pesquisa abaixo!”.

Pronto, meu caro Gabriel Eduardo, acima, espero que meus comentários ajudem a melhorar o serviço de vocês, mas duvido muito.

Diga ao Jeff (Bezos) que ele pagará caro por isso.

PS: Acho que vou imprimir meu livro e depois passear pelo maravilhoso Mundo dos Correios. Mas antes, vou beber umas cervejas.

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