
Idolatradas e queridos, esperei passar a concorrência com o aniversariante, menino Jesus, para confeccionar meus votos para um 2025, digamos, mais 2025 que 2024.
Acho pouco criativo desejar um Feliz Natal, em pleno Natal. No mais, desconfio severamente, há muito, que Papai Noel, trenó, renas e elfos existem nem na Lapônia, vizinha de Putin. Em neve até acredito porque já vi um monte de filmes onde aviões caem no meio de montanhas geladas e os sobreviventes são obrigados a praticar o canibalismo. E sem farofa! Então, Feliz Páscoa!
O Natal aqui em casa foi tranquilo, com as típicas iguarias da ceia: feijoada em lata, muita macarronada para ser aproveitada no café da manhã do dia 25 e litros de Fanta Uva. Desagradável foi devolver os cascos no dia seguinte porque o bar só funcionou até meio-dia.
Mas chega de Natal e suas brigas de família. Escrevendo depois, ainda ganho espaço para o que interessa: 2025!
Isso, claro, para quem acredita em 2025 e ano novo, afinal, o otimista é apenas uma pessoa mal informada. Ou vocês acham que depois da meia-noite o mundo vai mudar? Vai mudar um segundo, isso eu garanto.
Brincadeira, gente! Não teve feijoada, nem casco de Fanta Uva, as garrafas de hoje são de plástico. Teve nem ceia, muito menos briga de família, porque as pessoas trocaram as festas por meigas e fofas mensagens no WhatsApp, com o mesmo Papai Noel na neve. Para ser sincero, dia seguinte tivemos um almoço com tender. Não, tender não é picanha, é o pernil (parte traseira) do porco maturado com sal ou temperos e defumado. E o misterioso chester que, na verdade, é apenas um frango metido a peru? Peru? Vi nem o cheiro! Isso é apenas um vício burguês com fios de ovos.
Mesmo assim, o Natal foi uma beleza, até para os católicos que fazem a alegria, não das igrejas, mas dos shoppings, mesmo que comprem apenas uma lembrancinha.
Lembrancinha é uma maneira de dizer, afinal, estamos no Brasil, o melhor lugar do mundo aqui e agora. E se 2024 foi tão próspero, imaginem como será 2025! 1069 vezes melhor!
Só não aconselho certas notícias durante o café da manhã. Sim, porque deve ser horrível acordar e descobrir que existem lugares como o Haiti, o Sudão, o Iêmen, o Afeganistão, a Venezuela, a Faixa de Gaza, a Ucrânia ou a Suíça.
Felizes somos nós que moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.
Eu, por exemplo, quando as tempestades da primavera não guilhotinaram luz e Internet, passei o fim do ano com muita cultura e arte. Comecei a ler dois livros – o que é possível durante o dia ou à luz de velas – e revi vários documentários sobre grandes pintores e escritores como Cézanne e Modigliani, que morreram de pneumonia e tuberculose. Já Hemingway, se matou com um tiro duplo de fuzil.
Valeu 2024! Apesar de muitos velórios, perdas, medos e perigos na esquina; apesar do Galo; sobraram bons momentos e risadas; novos amigos, saudade gostosa de muita coisa e de muita gente; muito trabalho com prazer e mais arte. Aprendi muito e, espero, ouvi mais que falei. Revi Paris, depois de nove anos e o melhor de tudo, daqui a pouco, mesmo sem Champagne, com minha mãe e irmã, viverei o primeiro dia de 2025.
Tchau, 2024, você foi um grande ano! Teve 366 dias, pois foi bissexto. No mais, como escreveu a linda Ana Cristina César: “Ai que enjoo me dá o açúcar do desejo”. E da liberdade.
Bom, há muito eu não escrevia, e quando o fazia, no fim do ano e de vez em quando, roubava umas frases de Rubem Braga, mestre maior: “Desejo a todos, no Ano-Novo, muitas virtudes e boas ações e alguns pecados agradáveis, excitantes, discretos e, principalmente, bem-sucedidos”.
Continuando a roubar e pecar, sem ser preso, para ilustrar este texto, escolhi um de meus pintores, favoritos, Robert Rauschenberg que, em 2025, faria 100 anos. Beijos, abraços, carinhos sem ter fim e Feliz 2026!
PS.: esta crônica deve ser consumida até hoje, ao som de Tom Jobim ou Cole Porter, sem moderação. Merci!
Walter Navarro, Barbacena, 31 de dezembro de 2024

