26 de maio de 2022
Walter Navarro

Meus tempos de Robinho Crusoé


Correndo o risco de me repetir, vou contar sobre o único dia que, ainda bem, meu pai foi um Canalha, comigo e com meu irmão Newton.
Era dezembro de um ano dourado. Éramos meninos e, pelo Natal, pedimos ao Papai Noel, discos. Discos de vinil, lembram? O pai do CD, avô do Youtube, outros suportes e outras Internets.
A gente queria ganhar “disco de novela” – trilhas sonoras das novelas da Globo – que, àquela época, tinha música boa, mas nenhuma Brastemp de Bach, Miles ou Jobim, se é que me entendem.
Meu pai, puxando a brasa para sua sardinha, teve a cara de pau de presentear seus filhos, duas crianças, com discos em vinil, capa plastificada e tudo de Ataulfo Alves e Nat King Cole.
Que felicidade involuntária!
Para nós, não era música de novela, mas valia a novidade, admirar aquela bolacha preta rodando e soltando sambas no ar, no caso de Ataulfo.
No caso de Nat King Cole, foi ainda mais “nonsense”. Ele comprou os, agora antológicos, discos de “Nat King Cole en Español”. Por isso, durante anos pensei que Nat King Cole, naqueles boleros, era um cantador peruano, cubano. Mesmo sem saber diferenciar Argentina de Bolívia.
Meu irmão não sei, mas até hoje, sei “de cor e salto alto” o repertório dos três discos.
Tesouros que, mil anos depois, aprendi a apreciar de verdade; curtir como a melhor MPB e, no caso de Nat King Cole, um Sésamo para o jazz e tudo o que ele fez, desde “simples” pianista, até o cantor que matava anjos de inveja.
A infância é um maravilhoso labirinto para as coisas boas que entram, invadem e nunca mais partem. Assombram. “A gente era obrigado a ser feliz”.
Não raro, mentira, frequentemente, me flagro-me-me-me ouvindo os vinis, quando posso, e as músicas, no Youtube, sempre que quero.
Túnel do Tempo Total.
Cada canção daria um filme, uma crônica.
Uma principalmente, da lavra do bom e velho Ataulfo, mineiro que, como a maioria, só fez sucesso, porque mudou-se de Amélia e cuia para o Rio de Janeiro. Como Ary Barroso e 999 outros compositores e escritores. “Minas é uma fábrica de talentos. Só ficam aqui, aqueles com defeito de fábrica”, diria meu guru, Lincoln Continentino.
Mas a música de Ataulfo é “Meus Tempos de Criança”, aquela, mais que clássica chorando a “saudade da professorinha”; “eu era feliz e não sabia”.
Da minha primeira professorinha não posso falar, porque vão me rotular, de novo, como tarado.
Mas, nada mais verdadeiro que o tal do “eu era feliz e não sabia”.
Tempos de criança e de todas as descobertas, inclusive de ler “Robinson Crusoé”, do inglês Daniel Defoe (1660-1731).
Tempos de descobrir que (quase) todas as infâncias são parecidas e mágicas. Por exemplo, a minha e a de Carlos Drummond de Andrade, quando ele escreveu: “Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho, menino entre mangueiras, lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais…”.
Meu pai não montava a cavalo, mas minha mãe costurava. E eu escutava Ataulfo Alves, Nat King Cole e lia Robinson Crusoé.
Hoje, Robinho é nem um dolorido retrato na parede, é nome de jogador de futebol. Crusoé é apenas a revista digital do Diogo Mainardi.
Mas, uma coisa ninguém tira de mim, nem do Drummond: “Eu não sabia que minha infância era mais bonita a de Robinson Crusoé”.
PS: Com também não sabia que eu era feliz e não sabia.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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