28 de maio de 2022
Walter Navarro

Le Grand Michel et le Petit Brumado


Meu amigo e “editor” Valter Bernat, lá do Rio de Janeiro e do ano inteiro; do Rio de Janeiro de Tom Jobim, me sugeriu escrever sobre Michel Legrand, o oceânico compositor da trilha sonora de mais de 200 filmes, assassinado pela Vida, dia 25.
Pelo jeito aceitei a sugestão, mas por outros 1069 motivos.
Sou obrigado, primeiro a repetir minha frase recorrente: “Coincidências, como bruxas, não existem, mas acontecem”.
Semana passada, aqui, publiquei uma crônica sobre os 50 anos de dois ícones do erotismo, romantismo, blá blá blá.
Contei, a quem quis ler que, em dois programas da TV francesa, no Youtube, descobri, para meu pasmo que, a música “Je T’aime, Moi Non Plus”, de Serge Gainsbourg e o filme “La Piscine”, de Jacques Deray completaram, neste nascente 2019, meio século.
Acabei falando mais sobre a música e nada do filme que, aliás, nunca consegui ver, mas sei algo sobre.
Escrevi também que música e filme tinham uma coisa linda em comum, Jane Birkin, cantando na primeira, atuando no segundo, com sua voz deliciosa e sua estética deliciosa, gostosa.
À época, além de parceira musical de Serge Gainsbourg, Jane também era sua mulher. E que mulher!
E como era ciumento, Serge Gainsbourg! Tanto que Serge foi às locações do filme, “de surpresa”, para “tomar conta” de Jane. Por que? Absurdo?
Nem tanto. Os astros principais do filme eram nada menos que Romy Schneider e… Alain Delon, ambos no auge de suas mais lindas belezas.
Ora, que homem, em sã consciência de sua testa, deixaria a mulher, de biquíni, com Alain Delon, numa piscina, na Côte d’Azur?
E o roteiro, digamos, era mais quente que o verão naquele paraíso francês.
Pausa para relatar uma raridade. O filme ganhou uma segunda versão, “A Bigger Splash” (2015), de Luca Guadagnino, bem mais densa – esta eu vi e adorei – e muito boa, com Tilda Swinton e Ralph Fiennes. No papel de lolita, que foi de Jane Birkin, outra ninfeta carnal, Dakota Johnson.
Mas, continuemos.
A trilha sonora do filme original é de… Michel Legrand. E no especial sobre os 50 anos de “La Piscine”, Michel, 86 anos, muito combalido, frágil de saúde, sentado e cheio de casacos, contou coisa muito interessante sobre a trilha sonora.
Disse, modestamente, que a música do filme não se destacou muito e propositalmente. Disse mais ou menos isso: “Quando temos duas belezas como a de Romy Schneider e Alain Delon, em cenas tão tórridas, o filme nem precisa de música… A música é dispensável e até atrapalharia a música dos corpos”.
Pessoalmente, minha trilha sonora favorita, com a grife de Michel Legrand, é a do filme “Houve Uma Vez Um Verão” (“Sommer of 42”) de Robert Mulligan, em 1971. De novo, muita tensão sexual, através de um menino apaixonado pela linda Jennifer O’Neill. Me identifiquei muito, com o menino…
Pois é, as coincidências?
Tom Jobim fez poucas, mas sempre lindas trilhas para o cinema, como a de “Gabriela” (1983), de Bruno Barreto, com Sônia Braga, claro e Marcello Mastroianni.
Michel Legrand conheceu e se apaixonou por sua mulher, a atriz Macha Méril, no Brasil.
Michel Legrand morreu no mesmo dia 25 de janeiro, em que nasceram Tom Jobim e, ironicamente – para o carioca da Tijuca, gema e Ipanema – a cidade de São Paulo.
25 de janeiro de Brumadinho e não de Brumário, um dos meses do calendário da Revolução Francesa. Brumado vem de bruma, lugar onde há nevoeiro e não tsunami de lama tóxica…
Pois bem, pra terminar, outra coincidência ligando os dois gênios da música, Jobim e Legrand.
Há anos, vi uma entrevista, com Michel Legrand, no Brasil, onde ele percebeu coisa deveras interessante. Comparava a França e o Brasil. Elogiando este Brasil, explicou uma das grandes diferenças entre os dois países: “Na França, nosso maior aeroporto, em Paris, leva o nome de um militar, um general, Charles De Gaulle; aqui, o aeroporto de vocês têm um nome muito mais bonito, o de um músico, Antônio Carlos Jobim (o Galeão)”.
Mal sabia Michel Legrand que os brasileiros desprezam seu maior músico, ainda chamam o aeroporto de Galeão e não ouvem/gostam/valorizam suas músicas eternamente belas e perfeitas.
PS: E como disse Tom Jobim à Bruna Lombardi, em 1993, um ano antes de morrer e muito antes de Mariana e Brumadinho: “todo dia o brasileiro acorda e vai destruir o Brasil; suas matas, índios, bichos”.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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