Feliz Habeas Corpus Triste


20 de junho! 20 de junho! 20 de junho!
Algo me diz que hoje tem algo me dizendo. Uma data especial, além de Corpus Christi, um aniversário!
Não, aniversário foi ontem. Chico Buarque fez 75 anos, mas nem comemorei como antanho. Outrossim, nem mesmo ouvi um de todos seus CDs que tenho.
Ainda considero Chico o maior gênio da MPB, letra e música. Mas ele pisou feio na bola murcha. Ainda bem que tenho Tom Jobim e uma infinidade de franceses. E Stones e etc.
Pra começar, como cantava a Marina, quem vai colar os tais caquinhos do velho mundo? Pátrias, famílias, religiões e preconceitos, quebrou não tem mais jeito.
O encanto também, principalmente se ele for como aquele falso brilhante da Ciranda Cirandinha: “…O anel que tu me destes era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou…”.
Tem, mas acabou.
E olha que sou o Rei, não da cocada preta, mas da Cola. Cascorez Extra!
Feito o merchandising, hora de abrir meu baú de espantos.
Tive uma linda namorada polonesa em Paris. Assim como todo cearense chama-se Raimundo e todo maranhense, Ribamar; toda polonesa é Magda. De Magdalena. No caso, arrependida mesmo.
Uma noite, depois de fazermos muito “Cirque du Soleil”, ela disse que não podia mais ficar comigo. Tinha que cuidar do namorado, também polonês, alcoólatra e desempregado.
Sempre bobo, entendi e concordei. Mas eu estava mais angustiado que goleiro na hora do gol; tão apaixonado que pedi a Magda: “Me conta um defeito teu, uma coisa bem feia, uma mania horrorosa, alguma coisa pra eu lembrar quando estiver sozinho e não sentir muita saudade”.
Linda, gostosa, nua, crua e sorridente. Com aqueles dentes de colar de pérolas, aqueles peitos de escultura de Rodin, aquele monte de Vênus de Milo, aquelas curvas de Niemeyer, confessou: “Eu solto pum debaixo de cobertor e cheiro…”.
Pronto! Feito! Ela conseguiu, eu consegui. Ri muito e ao escrever, agora, rio de novo. Mas foi foda imaginar a cena. E como minha imaginação é irritantemente boa!
Saquem meu nível de frescura. Já terminei um namoro porque a moça falava de boca cheia…
Tem coisas que não cabem na mulher amada. Por isso a Danuza Leão recomenda às colegas de fina porcelana: “No banheiro, mesmo que tenha que abrir todas as torneiras para disfarçar, não deixe nenhum outro barulho escapar…”.
Assim, até hoje, quando alguém me esnoba ou é arrogante, eu imagino o Cazuza gritando: “Você caga e anda como todo mundo…”.
Como a Nicole Kidman! A Jennifer Lawrence! A Charlize Theron! A Natalie Portman! E principalmente a Tilda Swinton! Basta imaginar e sentir…
Minha primata prima Marta também envelhece dia 19 de junho, junto com Chico e também é insuportavelmente petista.
Ambos, para mim, têm mais nada de Buñel, muito menos de discreto, nem de charme. Só de burguesia. Pelo menos Marta me aplicou Rubem Braga, “infiniment merci”.
Chega de coincidências e confidências. Voltemos ao 20 de junho que interessa.
Mais um feriado no país dos feriados. E pensar que apenas países ricos deveriam dar-se este luxo. Com parcimônia!
Corpus Christi é corpo de Cristo, claro. Mais uma herança de Portugal.
Aliás, em Portugal é Corpo de Deus. Sempre na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo; “um Deus em três pessoas”. É o domingo seguinte ao de Pentecostes: aquele “foguinho”, a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a mãe de Jesus, a cruzeirense Maria.
Por falar nisso, aquela besteira de menino veste azul, menina, rosa? Sabiam que era o contrário? As meninas eram azul por causa do manto de Maria e os meninos usavam vermelho de sangue, de guerra. Os protestantes mudaram isso!
Mas, como é triste e violenta a história de Cristo, né? Tenho trauma de infância até hoje.
Quando falam em Corpo de Cristo penso logo em suplício. Sangue, chicotes, feridas abertas, torturas, surras e, pra terminar, uma boa crucificação.
Como podemos ser doces bárbaros, mamonas assassinas e abóboras selvagens!
Lembro que, por causa disso, custei a ver o filme do Mel Gibson, “A Paixão de Cristo” (2004). E fiz questão de ver durante o dia, à luz do dia. À noite e a noite sempre doem mais.
E nós católicos cultivamos esta paixão, esta tristeza, dor, violência. Cultuamos culpa e expiação.
Por isso gosto de ver o lado engraçado do drama. Sempre tem. Por exemplo, “A Vida de Brian”, (1979) do Monty Python.
No filme “Meus Caros Amigos” (1975), do Mario Monicelli e no livro “O Grande Mentecapto” (1979), do Fernando Sabino temos duas cenas muito parecidas e engraçadas.
No primeiro, os amigos canalhas descobrem que um deles encenaria um soldado romano na procissão e vão lá, defender Jesus, apedrejando e xingando o amigo.
No segundo, num teatro, o grande mentecapto sai da plateia e também, para defender o Cristo, sai quebrando o cenário e batendo no centurião.
E claro, temos o maravilhoso humor judeu. Jesus era judeu, como seus primeiros algozes… Pilatos, com certeza, era argentino…
O francês genial, Serge Gainsbourg, também era judeu, seu nome verdadeiro é Lucien Ginzburg. E ele filosofava: “Se Jesus tivesse morrido eletrocutado, todos os católicos usariam no pescoço uma cadeirinha elétrica em vez de uma cruz?”. Kkkkkkkkkkkkkkkk. Sacré Serge!
Desconfio severamente que, se esta bela história for verdadeira, Cristo sofreu e morreu por nós à toa. Não salvou-nos de nada. Continuamos cruéis, amorais e imorais. Impiedosos, egoístas, indiferentes.
Então, como celebramos cristo, seu corpo e seu sangue, hoje, dia 20 de junho? Orando, rezando, refletindo sobre o bem que Cristo fez e recomendou fazermos.
Amai-vos uns aos outros. Deseje ao próximo o que deseja a você ou melhor, não queira para os outros, o que não quer para você. Simples e difícil assim.
PS: Quem sabe num lugar algum, na Lapônia ou em Cafarnaum, os humanos sejam ruas e pontes para o outro. Pontes alegres e coloridas, fortes e lindas como o Corpo de Cristo. Beijos e Amém. Feliz 20 de junho ou 25 de dezembro.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *