25 de julho de 2024
Walter Navarro

Bom Dia Tristeza


Os muito bobos alegres que me perdoem, mas Tristeza é fundamental.
Hoje e um lindo dia para falar de Tristeza. A janela lateral à direita, no meu quarto, está aberta mais aberta que certas pernas para certa ideia de Paraíso: pássaros uivando, sol forte às 8h57, céu azul esbranquiçado de um calor panamenho, terra verde implorando por chuva, que é a Tristeza líquida das nuvens chorando.
E o dia apenas começa mais um dia rumo ao inevitável verão, a estação da felicidade. Mas, tristeza não tem fim, felicidade e verão sim.
Assim como nós, o verão mal nasce começa a morrer e “the Winter is coming…”.
Se não conseguimos assumir a própria lepra, deveríamos adotar a Tristeza, mãe de tanta beleza.
Assumir que somos realmente o resultado de raças tristes – a europeia, a indígena e a africana – como queriam José de Alencar, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro.
E se vierem com a conversa mole e cordial de Sérgio Buarque de Hollanda, cantando que raça não existe, apelo para Olavo Bilac, em “Música Brasileira”:
… Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.
És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:
E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.
Poracê é uma dança indígena.
Assumir também que vivemos nos “Tristes Trópicos” (1955), descobertos não pelos portugueses, mas pelo antropólogo francês da Bélgica, Claude Lévi-Strauss (1908-2009), depois de passear e flanar com nossos tristes índios, entre 1935 e 1939.
Do fado português herdamos “o lirismo, além da sífilis, claro”.
Não à toa confundem dois sentimentos pouco festivos, Tristeza e Melancolia, do latim “melancholia” e do grego “melankholia”: “bile negra”. “Melané” é “negro”, kholé, “bile”. Por isso, desde a Idade Média, tristeza e depressão têm um quê; um quilo de “bile negra”, um tumor, um humor que viria do inútil baço. Daí, até hoje, outro bife à milanesa entre bile e mau humor.
Um pulo, um salto enorme e chegamos aos três tristes tigres de “Bonjour Tristesse” (1954), da tigresa Françoise Sagan (1935-2004), um clássico da literatura francesa.
Com um pulo para trás, chegamos ao tema de hoje.
Há muitos anos, em Campinas, eu humilhava a noite com um amigo, no melhor estilo Cazuza e “mais um dose, é claro que eu tô afim”. O pequeno problema é que já era muito tarde e, claro, o gerente estava afim de ir embora; queria mais que a gente se fodesse ou fosse tomar no cu, tanto faz. Uma Tristeza.
Bêbados são emotivos e estávamos adorando a trilha sonora do bar. Foi então que o gerente aproximou-se desafiando-nos com o samba da hora, “Bom Dia Tristeza”.
E ele ainda deu uma dica: “Esta letra é do Vinicius de Moraes, se vocês souberem quem compôs a música, quem foi o parceiro dele, vocês podem ficar aqui até amanhã cedo”.
E foi assim que fomos embora.
Sabem quem é o mais improvável parceiro de uma música só, com Vinicius, que dava poesia para todo mundo?
Pasmem! O “gozador”, Adoniran Barbosa.
Podem ouvir a beleza aí no YouTube.
A parceria foi sem querer, mas a arte queria.
Certamente “inspirado” pelo título “Bonjour Tristesse”, Vinicius, diplomata em Paris, 1957, mandou, numa coisa antiga, chamada carta, o poema para Aracy de Almeida, que o repassou a Adoniran Barbosa. Pronto, “Fiat Lux”!
Adoniran compunha sambas engraçados, mesmo que no fundo fossem bem tristes, como “Saudosa Maloca”.
Já Vinicius assume, assina e confessa, desde o ano em que nasci, esta maravilha:
Dialética
(Montevidéu, 1962)
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…
O mesmo Vinicius que ensinou o soneto da mulher ideal, em “Samba da Bênção”, quando, na boa e de boa, soltou essas:
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza…
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão
PS: Sorriam, segunda-feira está chegando.
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Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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