Per te, Sandro Vaia!

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Per te, Sandro Vaia!

Meu primeiro texto aqui foi logo depois da partida do Sandro, em abril, e eu fazia conjecturas sobre o que ele estaria escrevendo naquela semana de agito político no submundo da nossa política. Semanalmente ele publicava seus textos no Blog do Noblat e aqui no O Boletim. Textos esses, sérios, recheados de informações precisas mas com a picardia que lhe era peculiar. Ele era capaz de descrever o corrupto, o mais sujo dos políticos sem descer ao nível deles,  sem perder a elegância. Quem o acompanhava na mídia, sabe do que estou falando.

Essa semana também foi de muita notícia importante: o alvoroço no parlamento para votar medidas contra corrupção (chega a ser hilário ver deputado mais sujo que pau de galinheiro,  ter de dar seu voto nessa matéria), o troca-troca nos Ministérios, os fuxicos do Calero, a morte de Fidel Castro, e claro, a mais importante: o título de Palmeiras Campeão, estampado nas faixas, nas bandeiras e nas camisetas alviverdes que coloriam o estádio.

Tenho certeza de ele não estaria comemorando a morte do ditador, porque o Sandro não comemorava a morte de ninguém. Ele estaria, porém, festejando o fim de uma era, junto aos milhares de cubanos que tiveram de deixar seu país, simplesmente por não concordarem com o regime castrista, ou festejando com os familiares dos cubanos mortos e torturados pelo mesmo motivo.

Da primeira vez em que esteve em Cuba, Sandro se encantou com as belezas de lá, assim como nós, eu a nossa filha Giuliana. Nos apaixonamos pelo povo cubano, que mesmo sem ter uma moradia decente, sem ter o que comer, ou sem poder desfrutar das praias de areias brancas e de águas azuis, destinadas exclusivamente aos turistas, é alegre, gentil, solícito e extremamente musical. Bastava a gente se sentar num bar ou num restaurante e lá vinha um trio cantando às nossas costas,  a ponto de cansar os nossos ouvidos com a popular “Jolanda” – é assim que eles pronunciam – (Yolanda, de  Pablo Milanés).

E não conseguíamos entender como aquele povo que enfrenta filas na calçada pra garantir os Moros e Cristianos de cada dia, podia ser tão alegre. Parecia uma espécie de feitiço do bem,  lançado sobre eles, por um feiticeiro do mal. O opressor que tolhia a liberdade de ir e vir, era ao mesmo tempo, idolatrado por uns (pelos mais velhos e por alguns brasileiros que defendem o socialismo, mas que não têm nenhum pudor em gastar seu rico dinheirinho em Paris) e odiado pelo mais jovens, que até hoje têm de procurar algum cantinho que tenha um sinal de internet para se atualizarem.

Isso tudo levou o Sandro a voltar a Cuba dois anos depois (em 2008) para colher material para o seu livro lançado em 2009 “A Ilha Roubada”. Ele passou quase um mês em companhia da blogueira Yoani Sánchez e de seu marido Reynaldo. Acompanhou de perto o dia-a-dia de uma família cubana. Via chegar logo cedo, o pão contado – três, ao todo: um para ela, outro pro marido e outro pro filho.

Via como as pessoas davam entrevistas veladas, falando mal do governo, via o medo estampado no rosto de quem não concordava com o regime mas que tinha de se manter calado para não ser preso.

Com a morte de Fidel, já dá pra se ver uma pequena luz no fim do túnel, embora o país continue nas mãos de um Castro. E isso, certamente deixaria o Sandro feliz!

Mas o que o deixaria mesmo muuuuuito feliz, é o título de Campeão Brasileiro que o seu querido Palmeiras, merecidamente recebeu.

Palestrino desde criancinha, (se encantou pelo time assim que chegou ao Brasil,  em 1954) Sandro não deixava de assistir aos jogos do Palmeiras em nenhuma situação. Até desmarcava almoços com amigos em dias de decisão.

Sabendo dessa paixão pelo time, amigos da imprensa fizeram com que, depois do minuto de silêncio, seu nome aparecesse escrito nos telões do Allianz Parque no momento em que estava sendo enterrado em Jundiaí.

Um momento de muita emoção e talvez, de profecia. Ele tinha dito, pouco antes de sua partida, “o Cuca vai nos redimir”!

E aconteceu! Vimos lutar até o fim, essa nova Academia de Dudu, sem Ademir da Guia, sem Edu, Leivinha, Cesar e Ney, mas com a garra de um Zé Roberto, de um Fabiano, de um Gabriel Jesus (não deixa ele ir embora, Sandro!) e de todos outros que deram o sangue pelo time.

Abbiamo vinto, Sandro!

E questo títolo è per te!

PS: infelizmente o grito de Campeão, foi sufocado dois dias depois do jogo, pela tragédia acontecida ao Chapecoense. Traiçoeiro esse destino. Tanta alegria num dia, inclusive para o Cuca que já foi jogador desse time catarinense,  e tanta tristeza no outro, vivida por um país inteiro!

 

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