30 de janeiro de 2026
Editorial

A entrevista de Fachin e o guarda-chuva do STF

Na entrevista ao jornal O Globo, Fachin falou como quem abre um guarda-chuva dentro de casa. Não porque estivesse chovendo, mas porque existiam nuvens ameaçadoras. A entrevista veio com um ar preventivo, cuidadoso e impermeável. Sua fala foi bem pensada. Nenhuma palavra fora do lugar, nenhum verbo que escorregasse para o concreto. Tudo muito seco — paradoxalmente protegido da chuva dos fatos escancarados pela mídia.

Sentado na liturgia do cargo, Fachin não falou como ministro ou presidente; falou como Instituição. Aliás, falou pela instituição, esse ente abstrato que não erra, não tropeça e, sobretudo, não responde a perguntas incômodas. Quando a realidade bateu à porta, ele puxou a cortina e mostrou o cenário clássico: democracia, estabilidade, ataques e pressões. Um cenário amplo o bastante para esconder os detalhes, tal como foi o 8 de janeiro.

Fica claro o esforço de contenção. O discurso foi institucional e pedagógico, reforçando a ideia de que o STF é uma fortaleza sitiada por narrativas externas, e que qualquer crítica mais dura seria uma tentativa de desmoralização. Não há autocrítica explícita, e sim uma defesa preventiva.

A entrevista não foi um diálogo como outras. Foi um pronunciamento em tom baixo. Fachin pareceu menos interessado em convencer do que em delimitar território. “Aqui é o STF!” – dizia nas entrelinhas – e aqui dentro as coisas não se discutem assim, com transparência “excessiva”. Crítica? Só se for genérica. Questionamento? Apenas em tese. Fatos? Melhor não personalizar.

O curioso é que ninguém estava pedindo confissão, apenas uma explicação. Mas, no Brasil togado, explicar virou sinônimo de fraqueza. Melhor vestir a armadura institucional e falar como se o problema fosse sempre externo — o ruído, a narrativa e o ataque. Nunca o gesto. Nunca o contexto. Nunca o incômodo.

Segundo ponto: a entrevista revela uma aposta clara na blindagem corporativa. Ao falar em “pressões indevidas” e “ataques à instituição”, Fachin dilui comportamentos individuais do coletivo. É menos sobre ministros e mais sobre o símbolo STF. A mensagem implícita é simples: questionar partes é colocar o todo em risco.

Terceiro, chama atenção o deslocamento do debate. Em vez de enfrentar fatos específicos — contratos, relações e circunstâncias — a fala migra para o plano abstrato (de novo como o 08/1): democracia, estabilidade e o Estado de Direito. É um movimento clássico: quando o concreto incomoda, sobe-se o tom conceitual. Funciona bem retoricamente, mas deixa lacunas.

A entrevista mostra um STF consciente do desgaste, ainda que pouco disposto a revê-lo internamente. Fachin fala mais para fora do tribunal do que para dentro. É uma tentativa de restaurar autoridade pela palavra, não pela revisão de práticas. Experiente, sabe que o silêncio absoluto hoje grita.

Então falou, mas falou para proteger, não para esclarecer. Falou como quem estende um guarda-chuva coletivo sobre colegas que nem estavam ali, mas que a chuva poderia molhar. E, ao fazê-lo, confirmou, sem querer, o que tentou negar: se há tanta preocupação com a imagem, é porque o espelho anda cruel.

Da entrevista não se tira novidade, mas confirmação. Confirma-se que o tribunal se vê acuado, reage em bloco e prefere a defesa institucional ao enfrentamento direto das zonas cinzentas. Não é uma entrevista de esclarecimento; é de posicionamento. A entrevista terminou sem sobressaltos. Nenhuma resposta faltou; nenhuma sobrou. Tudo muito correto.

Tão correto que deixou no ar aquela sensação familiar: a de que, mais uma vez, o país ouviu muito — e entendeu pouco.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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