
Escolher um vinho, principalmente quando é uma novidade ou um rótulo que nunca experimentamos, nos leva a uma encruzilhada clássica: confiamos nos pontos atribuídos por nosso crítico favorito ou acreditamos nas bem escritas notas de degustação, muitas vezes exibidas nos contrarrótulos?
Robert Parker, talvez o crítico de vinhos mais conhecido e respeitado, foi o grande divulgador do sistema de 100 pontos. Não foi o criador, mas o utilizou com tal maestria que, atualmente, um vinho de 100 pontos ferve a imaginação de qualquer um.
Curiosamente, esta escala tem um limite: não existe nota menor que 50 pontos, o equivalente a um vinho sofrível.
Existem outros sistemas, de 20, 10 e até 5 pontos, como o utilizado pelo popular Vivino.
Seria isto suficiente para escolhermos a nossa próxima garrafa?
Uma das grandes decepções para um enófilo é abrir um destes super rótulos e não gostar. Não era o vinho que o nosso paladar esperava.
Talvez seja um preço caro, que se paga por confiar, apenas, nos pontos. Precisamos de mais informações que auxiliem nesta tomada de decisão.
Não sei quem cunhou esta máxima, mas cabe perfeitamente nesta situação: “Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo.”
Notas de degustação, quando deixam de ser enigmáticas e escritas de forma clara e direta, são, quase sempre, “a frase certa”. O busílis é quem as redigiu.
Aqui está um bom exemplo, as notas do clássico Quinta do Vale Meão, sempre com altíssimas pontuações:
“Visual rubi escuro, intenso e profundo. No olfato, é complexo e elegante, com destaque para frutas pretas maduras, toques balsâmicos, especiarias e nuances de carvalho, chocolate e tabaco. O paladar se apresenta encorpado, rico e denso, com taninos aveludados e presentes, acidez equilibrada e final longo, complexo e mineral.”
Esta descrição consta da ficha técnica elaborada pela vinícola. Uma redação bem elaborada, focada em consumidores que “já sabem do que se trata”.
Para os iniciantes, “notas balsâmicas” e “nuances de carvalho, chocolate e tabaco” são descritivos um tanto enigmáticos, que nada auxiliam na hora de decidir.
Será que conseguiriam perceber estes descritores?
Existem outras expressões, largamente utilizadas nestas notas, como “chão de bosque”, “pedra molhada”, “xixi de gato” e outras pérolas que nos deixam em dúvida se o real propósito é nos fazer rir ou chorar, em vez de comprar o vinho.
Mesmo degustadores experimentados nem sempre conseguem perceber estas nuances descritas, sejam por críticos renomados, enólogos das grandes vinícolas ou por jornalistas especializados.
Cada uma destas versões vai traduzir o que cada um experimentou. Não se pode universalizar estas opiniões.
Obviamente, os descritores mais intensos são mais fáceis de serem percebidos, mas algo como “a sombra da lua no bosque adormecido” é melhor descartar.
Assim como o gosto de cada um, que é particular e único, as notas de degustação, soltas e sem a companhia de uma nota ou pontuação, também se tornam únicas, quando deveriam ser mais universais.
A única recomendação viável é: sejam fiéis a uma mesma fonte de informação. Habituem-se a compará-las com as suas próprias observações, criando um marco para ser usado em outras ocasiões.
Saúde!
CRÉDITOS: Imagem de Artur Shamsutdinov por Pixabay

