Memórias, lembranças e guardados

As notícias se sucedem e, no entanto, parecem todas iguais, velhas, empoeiradas…

Como num porão ou sótão sujo e mal iluminado, se olharmos com vagar, veremos insetos cruzando displicentes de um lado para o outro, sem medo, sem pressa, sem ninguém para pisá-los.
Onde quer que você encoste, ficará com marcas de bolor, de pó, de fuligem e cheiro de guardado… Há uma pequena janela – seria uma claraboia? Emperrada, não abre a menos que forcemos.
Mas, se forçarmos, nada veremos de diferente do lado de fora… E por que seria diferente do lado de fora? O que é vigiado e criticado, o que aparece ou com excessos ou com falta e está do lado de fora, é público, não mais nos interessa…
Vamos então explorar o lado de dentro, onde as coisas empoeiradas e esquecidas, de repente, podem ter ar de novidade. Uma foto um tanto amassada, não muito nítida, mas nítida o suficiente para que reconheçamos aquela pessoa que sumiu na distância dos caminhos que nunca convergiam, exceto enquanto tínhamos um objetivo comum…
Era tão boa, tão carinhosa, sempre disposta a ajudar, estudava muito, parecia ter, de fato, vocação: sua escolha fazia sentido…
Um lencinho bordado com uma borboleta – adoro borboletas – que, quando espirrava, era dele que me socorria, pensando que a pobre não merecia aquele destino, sempre úmida…
Uma caixa de madeira com uma gaveta, interessante trabalho de marcenaria mal aproveitado, ainda forrado de veludo amarelo, suas duas portinhas escancaradas, sem nada a esconder.
Uma outra caixa, de ferro, que diz, em inglês, que o caminho que leva à casa de um amigo nunca é longo demais. Dentro há botões e passamanarias, algo que hoje, ninguém mais sabe o que é e… miçangas, vidrilhos e lantejoulas, do tempo em que eu comprava essas coisas, separava-as em vidrinhos, na vã esperança de, um dia, pregá-las numa roupa que seria alvo da inveja de quem a visse…
Muitos papéis e um envelope escrito: “Particular”. Dentro, histórias de amor, juras jamais cumpridas, trocas de acusações apenas para manter aceso um entusiasmo que já arrefecia; fotos com dedicatória derramada e outras, da mesma época, comprovando que alguém iria sobrar na relação mal equilibrada.
Depois de algumas horas, com as mãos sujas e ressecadas, desço pensando que, mesmo com muito pó e a vontade de limpar tudo e jogar fora, porque não há mais lugar no mundo para guardar tantas quinquilharias, foi como ir ao cinema, aquecer a alma com lembranças, risos e lágrimas. Um bom filme, em todo caso!
Sinto pena dessas novas gerações, cujas memórias estão em computadores ou celulares, que são trocados a cada ano ou quase isso e que levam com eles, em grande parte, as fotos e escritos presentes apenas no Facebook, e que são, invariável e indefectivelmente, alegres, bem dispostos.
Será que irão lembrar-se que também choravam e ficavam tristes, quando escreviam?

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