A menina do Acre e a novela

Foto: Arquivo Google – UOL TV

Em nenhum lugar do mundo uma população e uma empresa de comunicação têm entre si uma relação tão umbilical e mal resolvida como é a relação entre os brasileiros e a Rede Globo de Televisão.
Mesmo que não admita, a população brasileira nascida após os anos 60 teve boa parte de sua memória estética e de seu imaginário de país construídos em maior ou menor grau a partir dos elementos indiciais oferecidos pela programação da Rede Globo. E independentemente da relação com a Globo, é fato: o brasileiro adora televisão.
Entretanto, entre uns e outros que, como se diz no popular, alisaram por anos os bancos do saber, assistir a televisão é coisa que não pega muito bem. No caso da Globo, a coisa é bem mais complexa. Associada ao golpe militar de 1964 e ao impeachment de Dilma, a emissora é a sucursal do demônio no Brasil. Diante disso, surge a grande questão da semana: o alvoroço que se deu na esquerda e em seus diferentes 50 tons de vermelho em torno da vitória da menina do Acre, Gleici Damasceno, 23 anos, na 18ª edição do Big Brother Brasil, o BBB, justamente uma das atrações mais condenadas da Rede Globo.
Jean Wyllys
Filiada ao PT, ativista de direitos humanos, estudante de psicologia e admiradora de Dilma Roussef e Lula, Gleici é a nova musa da esquerda brasileira. Por ter vencido o BBB, por ter gritado Lula livre e por representar a juventude negra, pobre, de esquerda e das periferias do Brasil. Seu nome já é cogitado para uma candidatura a deputada federal pelo Acre, repetindo de certo modo a trajetória de Jean Wyllys, que também saiu do BBB para a Câmara Federal, onde é um dos parlamentares mais atuantes.
A comemoração é legitima e compreensível. O que parece fora da caixinha é o fato de ficar subentendido que boa parte daqueles que estão felizes com o fato nos grupos de discussão e conversação pró-PT estavam acompanhando a performance de Gleici na TV. Como assim? Os militantes estavam acompanhando a menina na TV, assistindo à Globo e ao BBB? Nos detalhes dos textos comemorativos, a resposta à pergunta parece ser um evidente sim.
A alegria com a vitória de Gleici é mais um sinal claro do quanto o inimigo nos é útil quando nos é conveniente. Já se espalhou a narrativa, já que esta é a expressão da vez, de que “quando é no voto, a gente [a esquerda] ganha”. Ora, mas até o momento da menina do Acre vencer, o BBB não era, nos termos das mesmas pessoas que agora comemoram a vitória de Gleici, aquele programa cujos resultados, ou seja, os votos, eram completamente manipulados pela Globo para atender aos seus (dela, emissora) interesses? Essa parte ainda não ficou clara aqui no desenho cerebral: a Globo não tem o poder que a esquerda lhe atribui de manipular ideologicamente votações populares, e, assim, os Marinho não têm a culpa da qual o acusam todos os dias?
Intestinos
Ou a emissora agiu como a manipuladora de sempre, viciou os dados e, com isso, deu a vitória a uma menina de esquerda, pobre, preta, periférica, ativista e defensora de Lula livre? Alguém faça logo um novo desenho, pois essa narrativa contém muitas contradições, já que está em discussão a Globo, o BBB, seu público, supostamente tão golpista quanto, e uma vitória do avesso da ideologia da casa. Sei não, mas essa menina do Acre está mais para uma emulação de Clara, a personagem do novelão das 9, que volta para se vingar de todos que a machucaram.
Talvez a vitória de Gleici seja tão somente, de novo e de novo, a vitória da própria narrativa da Globo, que, enxadrista como sempre, roteirizou Gleici a partir de Clara e a vendeu para o país como a vingadora de verdade, não do país, mas tão somente das tais personagens de carne e osso da casa de vidro do confinamento. Faz mais sentido essa versão, que a de um país fazendo justiça política e social com uma ativista de esquerda dentro dos intestinos do Jardim Botânico. Mas, assim é se lhe parece…

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