28 de maio de 2024
Sergio Vaz

Corações Enamorados / Young at Heart

De: Gordon Douglas, EUA, 1954

Nota: ★★½☆
Young at Heart, de 1954, no Brasil Corações Enamorados, foi o único filme em que atuaram – e cantaram – juntos Doris Day e Frank Sinatra. Não é pouca coisa, não, de jeito algum.
Pode não ser um grande filme, e não é mesmo. Mas, para quem gosta dos filmes da época de ouro de Hollywood, e da Grande Música Americana, é um banquete finíssimo, soberbo.
Já nos créditos iniciais Sinatra canta a faixa que dá o título original do filme, “Young at heart” (Johnny Richards-Carolyn Leigh). A canção volta no final do filme, cantada primeiro por Sinatra e em seguida por Doris Day, com os dois unindo as vozes nos versos finais da canção, no único dueto que jamais fizeram na vida.
Fairy tales can come true, como bem diz a letra. Os contos de fada podem virar realidade.
Sinatra canta “Just One of Those Things” (Cole Porter), “Someone to Watch Over Me” (George & Ira Gershwin), e, num momento em que seu personagem está profundamente triste, desesperançado, “One for My Baby (and One More for the Road)”, uma das canções dor-de-cotovelo mais perfeitas que já foram feitas (Harold Arlen-Johnny Mercer).
Doris Day canta “Hold Me in Your Arms” (Ray Heindorf-Charles Henderson-Don Pippin), “Ready, Willing and Able” (Floyd Huddleston- Al Rinker-Dick Gleason), “Till My Love Comes Back to Me” (Paul Francis Webster-Felix Mendelssohn, adaptação Ray Heindorf), “There’s a Rising Moon for Every Falling Star” (Sammy Fain-Paul Francis Webster).

Os dois começaram a carreira exatamente no mesmo ano, como crooners de orquestra

Francis Albert Sinatra e Doris Mary Ann Kappelhoff têm muita coisa em comum, além de serem filhos de imigrantes, ela de alemães, ele de italianos, e de terem nascido mais ou menos na mesma época, ela em 1922, ele em 1915. Claro, ambos foram ao mesmo tempo cantores e atores de cinema de imenso sucesso nos dois campos. No cinema, não se restringiram a musicais – muito ao contrário. Foram atores versáteis, trafegando por vários gêneros, inclusive, claro, o drama e o thriller policial.
Mas, para mim, o ponto de contato mais forte, mais importante, que liga Doris Day a Frank Sinatra, é o fato de que os dois começaram a carreira como crooners de grandes orquestras, e exatamente no mesmo ano, 1940 – ela, ainda menor de idade, com a orquestra de Les Brown, ele, com a de Tommy Dorsey.
Tenho no meu iTunes as primeiras gravações de Sinatra com a orquestra de Tommy Dorsey – da fabulosa caixa de cinco CDs The Song is You, lançada em 1994 –, e as primeiras de Doris Day – do CD duplo The Complete Doris Day With Les Brown, lançado em 1996 –, e me impressiona demais, sempre que toca uma das faixas, seja dele, seja dela, como a estrutura é a mesma. A orquestra apresenta a melodia inteirinha; só bem mais adiante, depois de cerca de um minuto, pouco mais, pouco menos, entra a voz do crooner ou da crooner.
Nas suas primeiras gravações, a partir de 1940, Frank Sinatra e Doris Day eram um instrumento da big band. Nem mais, nem menos. Belíssimas vozes, límpidas, jovens, dicção perfeita, cada sílaba de cada palavra perfeitamente pronunciada – instrumentos da orquestra.
Ver os dois juntos em um filme é uma experiência que dá imenso prazer.

É um musical, mas não é uma comédia. Tem drama, e quase vira tragédia

Ao contrário do que se poderia pensar, Young at Heart não é uma comédia musical. Tem muita música, como já foi apontado, e há muito romance, como indica o título brasileiro, mas não é uma comédia romântica. Lá pelas tantas, vira drama, e só não acaba em tragédia porque Frank Sinatra impediu – mas sobre isso volto a falar mais tarde.
O filme se baseia em uma história da romancista americana de origem judia Fannie Hurst (1889-1968), cujos livros deram origem aos melodramões Imitação da Vida (1934, com Claudette Colbert, refilmado em 1959 com Lana Turner), Esquina do Pecado/Back Street (1932, com Irene Dunne, 1942, com Margaret Sullavan, e 1961, com Susan Hayward) e Humoresque (1920, com Vera Gordon, refilmado em 1946 com Joan Crawford), para citar só alguns.
Como dá para ver, as histórias de Fannie Hurst não eram apenas filmadas por Hollywood, mas em geral também refilmadas. Young at Heart é também uma refilmagem: a história já havia sido levada ao cinema em Quatro Filhas/Four Daughters, de 1938, sob a direção do grande Michael Curtiz, também uma produção da Warner Bros., feita para o brilho da estrela Priscilla Lane e com duas irmãs dela, Lona Lane e Rosemary Lane, interpretando irmãs da personagem central.
É a história de uma família musical: o pai é um maestro, professor de música; as quatro filhas têm também algum talento, e cada uma toca um instrumento. O filme tinha música, é claro – mas não era um musical. Esta refilmagem de 1954, dirigida por Gordon Douglas, teve roteiro dos mesmos roteiristas do filme anterior, Julius J. Epstein e Lenore J. Coffee – só que é aberta, escancaradamente um musical.

São três irmãs, louras, de olhos claros, e casadoiras

Para a versão musical, a dupla Julius J. Epstein e Lenore J. Coffee cortou fora uma das irmãs da história original de Fannie Hurst e do primeiro filme. Aqui são três irmãs, todas louras de olhos claros. Pela ordem de idade, Fran (interpretado por Dorothy Malone, a mais bela delas, com aquela beleza faiscante que mostrou também em Palavras ao Vento, de 1956, e O Último Pôr-do-Sol, de 1961), depois Amy (o papel de Elisabeth Fraser) e depois a caçula Laurie (o papel de Doris Day).
As três moçoilas loiras e casadoiras vivem com o pai, Gregory Tuttle (Robert Keith), e a irmã dele, a solteirona tia Jessie (o papel da veterana Ethel Barrymore, sentada na foto acima, do clã presente na história de Hollywood desde sempre), numa casa ampla, gostosa, numa cidade de Connecticut, o Estado que tem a vantagem de estar bem perto da maior metrópole americana e nenhuma desvantagem por causa disso.
Fran toca harpa e namora Bob Neary (Alan Hale Jr.), um próspero empreendedor da área imobiliária.
Amy toca flauta e é paquerada por Ernie Nichols (a estréia de Lonny Chapman, ator que reuniria em sua filmografia mais de 160 títulos). Ernie é um sujeito legal, simpático, e também não é mau de grana – é dono de uma boa loja e oficina de aparelhos eletrodomésticos, mas as pessoas insistem em chamá-lo de encanador, que foi como ele começou.
A caçula Laurie toca piano e canta muito bem, mas não tem namorado nem ninguém que a paquere – quando a ação começa.
De repente irrompe na vida da família Tuttle um sujeito chamado Alex Burke (o papel perfeito para o galã Gig Young).
Alex Burke também é da música. Seu pai havia sido colega do velho Tuttle nos estudos de música, e ele compõe – compõe canções, letra e música, e as canções parecem brotar da cabeça dele sem qualquer esforço. Um produtor de musicais da Broadway havia acabado de encomendar a ele uma série de canções para um novo espetáculo.
Ele é bonitão, charmoso, elegante, absolutamente seguro de si. Ao se apresentar para o velho Tuttle como filho do colega, logo ganha o respeito dele. Tuttle o leva ao conservatório onde leciona, e Alex consegue um emprego lá. E já se insinua para morar com Tuttle, usando um quarto que estava vago.

Sinatra só aparece quando o filme está com 35 minutos

A linda Fran, que já está noiva de Bob Neary, se apaixona por Alex. A bela e suave Amy, que simpatiza com Ernie mas não suspira por ele, se apaixona por Alex. A caçula Laurie se dá muito bem com Alex, ficam muito próximos.
O espectador vê claramente que Alex está virando a cabeça das duas irmãs mais velhas, enquanto ele próprio se sente cada vez mais atraído pela caçulinha. Só mesmo Laurie é que não percebe que as irmãs estão babando pelo sujeito que arrasta as asas para ela.
O filme já está com 35 minutos quando surge na história Barney Sloan, o papel de Frank Sinatra.
Gordon Douglas era um diretor experiente, testado, em 1954, o ano de lançamento de Young at Heart. Entre 1935 e 1938 dirigiu dezenas de curtas, e a partir de 1939 fez longas a cada ano, em geral mais de um por ano. Mesmo assim, caiu na bobagem da obviedade na hora de botar na tela pela primeira vez o personagem interpretado por Sinatra.
Toca a campainha na casa dos Tuttle; a tia Jessie vai abrir a porta. Abre a porta… e o visitante está olhando para a rua, de costas para a porta, de costas para a câmara. Só então se vira – e espera-se que naquele momento do escurinho dos cinemas saia o som de um grande suspiro das mocinhas todas da platéia: aaaaah, o Frank!
Frank, o ídolo que, duas décadas antes da Beatlemania, fazia mocinhas suspirarem, gritarem, berrarem, molharem as calcinhas nos seus shows, era magro e feio como a fome, em 1954, aos 39 anos de idade. Pois é: estava com 39, mas parecia ter uns 25 e era magro como um biafrento, como uma top model dos anos 2010.
Barney Sloan havia sido convocado por Alex Burke para subir de Nova York até aquela cidade classe média de Connecticut para fazer os arranjos das canções que ele estava compondo para o tal show da Broadway.
É um talento, um grande arranjador – mas é um sujeito tristonho, infeliz, e que, além de ser de fato tristonho, infeliz, é do tipo que industrializa a infelicidade, torna a infelicidade a sua marca registrada.
Anda com a roupa amarfanhada, a gravata frouxa, o ar de tédio e tristeza absolutos. Se aparecesse numa festa de existencialistas franceses daquela mesma época, faria um sucesso tremendo.
Diz que os deuses, ou seja lá o que for que há lá em cima – e aí olha para cima – não gostam dele, o perseguem. Nunca tem boas oportunidades, nunca ganha bom dinheiro. Vive de tocar piano e cantar em bares em que as pessoas falam alto e riem e não ouvem a música, e, às vezes, desses bicos de fazer arranjos para outros compositores brilharem.

Com a chegada de Barnie, temos então 3 moças e 4 rapazes. Alguém vai sobrar

Barnie Sloan-Frank Sinatra, em suma, é o exato oposto de Alex Burke-Gig Young.
Laurie-Doris Day, a caçulinha das irmãs Tuttle, é também o exato oposto de Barnie. É solar, cheia de vida, de energia, de bom humor. Bem no início da narrativa, ela diz para a irmã Amy, de quem é muito próxima, muito mais que de Fran, a mais velha: – “O bom humor é fundamental, se eu quiser me casar um dia. Esse é o problema de muitos casamentos: faltam risadas”.
Mas é um ser musical, e é claro que se sente atraída pelo talento daquele sujeito tristonho, infeliz, amargurado, que se diz um abandonado pelos deuses, pelas musas.
Antes de Barney Sloan aparecer, tínhamos três mocinhas e três homens – as irmãs Tuttle de um lado e, de outro, Alex, Bob e Ernie. Havia um desequilíbrio danado ali, porque Fran e Amy suspiravam pelo mesmo homem. Mas, a rigor, havia um empate – 3 a 3.
Quando Barney Sloan-Frank Sinatra aparece, a conta desequilibra totalmente.
Pensei nisso, lá pela metade do filme: xi, vai sobrar alguém.

Sinatra tinha acabado de ganhar o Oscar, e chegou às filmagens todo cheio de si

Nos meados dos anos 50, a carreira de Sinatra voltava a empinar, depois de alguns anos em que não esteve muito bem. Como cantor, depois da época como crooner de Tommy Dorsey, quando gravou pela RCA, havia passado um tempo na Columbia – e não foi sua melhor época. Exatamente em 1954, tinha assinado com a Capitol – e mais tarde faria grandes discos por essa gravadora, ligada então à EMI. Mas tinha vivido uma fase não muito boa.
Havia lutado muito para ter o papel de Angelo Maggio no drama de guerra A Um Passo da Eternidade/From Here to Eternity, lançado em 1953. Queria desesperadamente um papel importante num drama sério, para demonstrar que não era apenas um cantor que também trabalhava em filmes musicais. (Mario Puzzo, em seu romance The Godfather, criaria um personagem, um cantor de origem italiana, que pedia a ajuda do chefe mafioso Don Corleone para convencer produtores de Hollywood a lhe dar um papel num drama.)
Tinha obtido o papel – e aí levara o Oscar de coadjuvante por sua interpretação de Angelo Maggio.
Era Frank Sinatra, afinal de contas, e acabava de ganhar o Oscar. E então chegou aos estúdios da Warner para fazer este Young at Heart muito cheio de si. Não parecia nada com seu personagem, tristonho, infeliz, amargurado. Era mais cheio de si, mais metido a besta do que o bonitão Alex Burke.
Implicou com o diretor de fotografia, com o marido de Doris Day e com o destino de seu personagem.
Quando as filmagens começaram, Charles Lang era o diretor de fotografia. Charles Lang (1902-1998) era um grande profissional. Assinou a fotografia de quase 150 filmes, teve nada menos que 17 indicações ao Oscar, levou uma estatueta para casa (por Adeus às Armas, de 1932). Meticuloso, cuidadoso, Lang levava tempo preparando cada tomada. Sinatra, metido, não gostava de esperar, não gostava de chegar cedo, não gostava de ensaiar. Ameaçou cascar fora do projeto a não ser que tirassem Charles Lang. Tiraram Charles Lang.

Sinatra implicou com o marido de Doris Day. E o trágico era que ele estava certo

Aí The Voice implicou com Martin Melcher, o marido da estrela.
Doris Day era uma imensa estrela, quando o filme foi feito. Era uma das maiores estrelas da Warner Bros., o estúdio tinha tido vários filmes de sucesso com ela. Ardida como Pimenta/Calamity Jane, de 1953, tinha dado um monte de dinheiro.
Martin Melcher era o marido número 3 – haviam se casado em abril de 1951. O cara queria ser, mais que marido, também o agente da moça. Queria ser co-produtor dos filmes dela.
Sinatra estava convencido de que Melcher não era um bom sujeito, que estava usando a mulher para se firmar na indústria. Disse isso para ela, mas ela não deu ouvidos. Sinatra não desistiu – o way dele não era de desistir. Mexeu os pauzinhos para que a presença de Melcher no estúdio fosse proibida. Conseguiu.
O mais trágico dessa história é que Sinatra tinha razão. Fairy tales can come true, mas também histórias de horror. Quando Martin Melcher morreu, em 1968, depois de administrar a carreira e o dinheiro de Doris Day por duas décadas e meia, a estrela descobriu, chocada, que estava cheia de dívidas.
Mas fairy tales can come true, desde que você se mantenha jovem no coração, e o fim da história foi feliz. Doris Day foi à luta na Justiça para reaver a fortuna que o marido havia dilapidado, conseguiu reaver US$ 22 milhões, e em 2017, aos 94 anos, vivia feliz em Carmel, na costa da Califórnia, dedicando-se a defender os direitos dos bichinhos domésticos.
Aqui, um spoiler horroroso: revela-se o final do filme. Se não tiver visto, não leia

Aqui se revela o final do filme. Spoiler brutal.

Quando Young at Heart vai se aproximando do fim, ali pelos 40 minutos do segundo tempo, Barney Sloane-Frank Sinatra está dirigindo numa estrada à noite, na época do Natal. Está sozinho no carro. Neva – e o limpador de para-brisa emperra. Em vez de ir para o acostamento, parar o carro, Barney continua dirigindo, sem enxergar nada à sua frente.
No filme original, Quatro Filhas, o personagem correspondente a Barney morre no acidente. Mas Sinatra bateu o pé, colocou a coisa na base do é pegar ou largar. A Warner mudou o final da história.
The Voice era fodinha.
Anotação em agosto de 2017
Corações Enamorados/Young at Heart
De Gordon Douglas, EUA, 1954
Com Doris Day (Laurie Tuttle), Frank Sinatra (Barney Sloan), Gig Young (Alex Burke), Ethel Barrymore (Jessie Tuttle, a tia), Dorothy Malone (Fran Tuttle, a irmã mais velha), Robert Keith (Gregory Tuttle, o pai), Elisabeth Fraser (Amy Tuttle, a irmão do meio), Alan Hale Jr. (Bob Neary), Lonny Chapman (Ernie Nichols), Frank Ferguson (Bartell)
Roteiro Julius J. Epstein e Lenore J. Coffee
Adaptação Liam O’Brien
Baseado na novela Sister Act, de Fannie Hurst
Fotografia Ted McCord
Música Ray Heindorf
Montagem William Ziegler
Produção Henry Blanke, Warner Bros., Arwin Productions
Cor, 117 min (1h57)

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