Cultura não tão inútil


Tudo isso começou para exemplificar o uso de pronome átono em próclise, comum no Brasil, em Portugal e por Camões. Porém, como uma coisa leva a outra… Não foi à toa que nasci no mesmo dia que Proust, que era prolixo. Bem que eu poderia ser lacônica: sim ou não.
“Agora tu, Calíope, me ensina
O que contou ao rei o ilustre Gama
Inspira imortal canto e voz divina
Neste peito mortal que tanto te ama”…
Nesses versos da abertura do Canto III de “Os Lusíadas”, dirigidos a Calíope (em grego antigo Καλλιόπη), musa da poesia épica, da eloquência e da ciência e uma das 9 musas que tutelam as artes – Filha de Zeus e Mnemósine (memória) -, Camões queria saber tintim por tintim o que Vasco da Gama teria contado ao Samorim de Calecute quando se dirigiu ao rei indiano na sua viagem inaugural. A musa foi generosíssima com Camões e a dupla obrigou o pobre Samorim a ouvir os quatro séculos de história de Portugal já decorridos até então.
E nós com isso? Acontece que esse “Calíope me ensina” é o mesmo caso de pronome átono em próclise que nós brasileiros utilizamos quando exigimos no modo imperativo: “Me empresta isso, me passa aquilo…” Os gramáticos dizem que Camões usou uma “licença poética”.
Só por curiosidade, as outras musas são Clio (Musa da história), Tália (Musa da Comédia e da poesia ligeira), Melpómene (Musa da Tragédia e da harmonia musical), Érato (Musa da poesia erótica), Urânia (Musa da astronomia), Polímnia (Musa da poesia sacra), Terpsícore (Musa da dança e do canto) e Euterpe (Musa da poesia lírica).
PS: Da união de Calíope com Eagro, rei da Trácia, nasceu Orfeu (poeta mítico e músico). Amada por Apolo (deus da música), ela teve mais dois filhos:
Himeneu (deus dos cantos nupciais, do casamento) e Iálemo (deus dos cantos tristes pelos que morrem jovens)…

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