Cascais


Fui a Cascais para escrever este texto. Descobri uma cidade adorável, perto de Lisboa, para onde se vai de combóio (trem). Arrumando meus papéis, achei a matéria publicada primeiro no Jornal do Brasil, Caderno de Turismo, e depois num folheto muito elegante, produzido pelo meu querido, genial e saudoso amigo George Ellis, para um lançamento imobiliário da Wrobel, em 1989. Espero que meus amigos que não conhecem o meu trabalho jornalístico gostem.
Vila de Pescadores e Terra de Reis
O último refúgio da alta burguesia aristocrática na Europa, em clima doce e cheio de luz, é vila de pescadores e terra de reis. Nas azuis águas tranquilas de sua baía, abrigada dos ventos de norte e noroeste pela serra de Sintra, flutuam em colorido balanço barcos de pesca e iates. Estranhos contrastes que concedem à vila de Cascais particular encanto. Elevada à categoria de vila em 1364, época em que a maior parte dos países europeus nem sequer existia, Cascais teve vários donatários da mais distinta nobreza do reino. Talvez seja útil lembrar a diferença entre nobreza e aristocracia, a primeira ligada ao sangue e a segunda aos cargos da corte. Na segunda metade do século XIX a família real instala-se em Cascais para vilegiaturas outonais, o que atrai as elites da capital. A pequena vila torna-se o centro de grandes entretenimentos mundanos e sociais. As festas sucedem-se. Com o fim da monarquia substituíram-se os reis pelos presidentes. Cinco ministros de Portugal do atual governo moram nesse concelho.
Foram, porém, as vicissitudes da Segunda Guerra que conferiram a Cascais sofisticado ar cosmopolita. A região acolheu exilados régios que, fugindo aos perigos causados por tal conflito, acabaram por fixar residência nesse aprazível recanto, oásis de paz numa Europa em chamas.
A discreta senhora de vestido de linho cinza, ligeiramente fora de moda, como convém, que está almoçando na companhia de uma amiga em mesa próxima à sua, em um dos excelentes restaurantes de Cascais, pode muito bem ser a rainha-mãe da Bulgária. Quem sabe o cavalheiro de gravata de seda ou o afável senhor com seus sete filhos não sejam, respectivamente, o conde de Barcelona ou o arquiduque da Áustria? Citado no “Gotha”, outro morador: o duque de Bragança. E não podemos esquecer os Palmela, Espírito Santo e Champalimaud, membros de tradicionais famílias lusitanas residentes nesse local cheio de charme e com uma qualidade de vida que já não é fácil encontrar nem na Europa nem no mundo atual.
Há também brasileiros: segundo os portugueses, os melhores elegem Cascais a vila de seus corações. É hábito muito civilizado poder caminhar, com tranqüilidade, até o Take Away, para comer um simpático sandwich; ou almoçar no restaurante Faroleiro, na praia do Guincho, onde se come o melhor arroz de marisco de Portugal.
Cascais também tem seu Florentino que serve, entre outras iguarias, santolas frias, queijo da serra da Estrela, framboesas frescas e vinho da Quinta da Bacalhôa. Mais tarde estica-se no Casino Estoril, de renome internacional, para ganhar alguns milhares de escudos ou “contos”, como dizem alguns, no bacará ou na roleta francesa.
Da mesma forma, é muito agradável sorver, com fidalga informalidade, uma “amarguinha” sob as cinco estrelas da Estalagem Senhora da Guia, na qual preferem hospedar-se brasileiros do mundo político e empresarial.
Cascais lembra a zona sul do Rio de Janeiro nos anos cinquenta, com a sua elegante simplicidade. É voltar no tempo, todos se encantam. Lá, a palavra ostentação nunca esteve na moda.
Faço questão de recomendar o linguado do “João Padeiro”, restaurante frequentado principalmente por turistas, mas absolutamente típico e encantador, ou o do “Visconde da Luz”.
Depois do jantar, a “Casa do Lago” oferece ambiente acolhedor para uma agradável conversa. Também não custa beber um copo na boîte “Van Gogo”, ou na “Coconuts”. E, como programa diurno, sugiro um matutino pequeno almoço, correlato português ao brasileiríssimo termo café da manhã, ou um vesperal chá, um e outro no “Frolic”. Não posso deixar de mencionar ainda a “Sacolinha”, lugar frequentado por gente jovem onde o grande sucesso é um pão… brasileiro! E anotem, por favor: a praia que corresponde ao trecho da Vieira Souto em frente ao Country Club é a praia do Guincho, deslumbrante, cercada de falésias de 30m, onde são realizados todos os anos campeonatos de windsurf, funboard e são praticadas todas as modalidades de esportes náuticos. Em frente ao mar, emoldurado pela serra, o Golf da Quinta da Marinha é um dos mais bonitos do mundo.
O ar de Cascais é perfumado pelos verdes pinhais, já que a região é há muitos séculos uma zona de paisagem protegida. Em termos práticos, isso implica não poder haver construção indiscriminada. O índice de ocupação é cuidadosamente ponderado. Uma residência só pode ser construída em terreno de 10 mil m2 ou 1 hectare, porque uma parte do terreno deve preservar a vegetação nativa.
Cascais pulou um século, da costa do Estoril, onde se situa com ar de século dezenove, para o terceiro milênio. Poupou-se de sofrer os devastadores efeitos da poluição industrial. Sua qualidade de vida já e a mais alta de Portugal e não há desemprego nem violência.
À primeira vista parece que esta pequena cidade se resume a uma pequena rua, rua esta que usufrui da curiosa peculiaridade de estar cercada, por todos os lados, de hotéis cinco estrelas, restaurantes excelentes que servem comida excepcional, bares, pastelarias, boîtes, casino, pinhais, mares e supermercados. É comércio moderno e bastante diversificado, que atende com perfeição a clientela elegante, distinta e reservada. Podemos encontrar vinhos de todas as procedências, chocolates, queijos, bolachas, brinquedos, livros, perfumes, roupas, gravatas, bolsas, cintos e sapatos; make-up, joias, porcelanas que levam a assinatura de Paloma Picasso, toalhas bordadas e lenços de renda. E, até mesmo cabeleireiros, lojas que vendem equipamento fotográfico, floriculturas, além de uma academia de ioga e uma escola de música.
Trata-se de uma pequena vila de pescadores, num país dentro de federação com 350 milhões de habitantes e um PIB maior do que o dos Estados Unidos. Para ter-se uma ideia de como Cascais está perto do mundo, no supermercado local você pode comprar diariamente, e muito frescas, romã da Espanha, carambola da Malásia, manga da Índia, maçã da Nova Zelândia, kiwi de Israel, goiaba do Brasil e maracujá da Venezuela.
Com a vinda do inverno, chega a temporada das tulipas e dos ingleses. O refinado turista de Cascais não é o que procura o banho de mar. Interessa-se pela restauração, vida social, cultural e por desportos que incluem do tiro ao alvo à equitação, do tênis ao bridge ou xadrez, mencionando-se a pesca, saltos de pára-quedas, rugby, hóquei e outros mais. Que me dê razão ou discorde a Sra. Elsie Lessa.

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