9 de agosto de 2022
Colunistas Ligia Cruz

Um beijo no gordo

Foto: Google Imagens – Estado de Minas

Fazer graça está cada vez mais difícil neste país que anda de mau humor. Muitos dos que tinham essa habilidade, já não estão mais entre nós. Se foram e deixaram poucos lastros, restaram os medíocres.

Jô Soares conseguiu a proeza de entreter e arrancar risos das pessoas das mais diversas formas por décadas. Quer seja pelos mais de trezentos personagens que personificou na TV brasileira, quer seja pelas cerca de quinze mil brilhantes entrevistas que realizou.

Ele tinha “sacadas” geniais para arrancar informações até mesmo dos personagens mais controvertidos. Para ele sempre tinha algo mais a saber dos entrevistados, mesmo daqueles duros de soltar o verbo. Ele enfrentava a madrugada e afinava sua orquestra com ânimo genuíno e piadas infames.

Desde os tempos da “Família Trapo” e do programa “Faça humor, não faça a guerra”, nos anos 1970 e 1980, o gordo nos divertiu junto de outras tantas feras do humor. Gente que tirava o peso dos dias ruins.

O amargor que hoje sobe pela garganta do brasileiro e asfixia, não será mais compensado pela doçura ingênua de piadas banais. O icônico “capitão gay”, o super-herói homossexual caricato, interpretado por ele nos anos 1980, hoje seria reprovado pela censura do politicamente correto.

Pessoas que sabem fazer sorrir e refletir estão em extinção. Vivemos os tempos dos bordões comportamentais, da lacração de verdades plantadas e da falta de talento.

O script nos dias de hoje tem um padrão mundial, portanto não sobra espaço para o improviso e para a molecagem das tiradas fortuitas.

A pandemia não é e nunca foi responsável pela falta de humor. A história tem outros exemplos parecidos. Apesar dela, seguiu-se o protocolo que, para o bem ou para o mau, deixou cicatrizes profundas, ficamos mais contidos. Mas isso não nos impediu de sorrir e sonhar. É assim que se deve enfrentar as crises, com leveza. E é nessas horas que pessoas talentosas como o Jô fazem falta.

Esse país acabrunhado e triste precisa de mais artistas livres de rótulos de patrocinadores e tendências sociais. Os que hoje aí estão e tentam trilhar esse caminho não têm a verve. Isso não se ensina.

Hoje, parece que o humor tem data de validade. Pelo menos, é a sensação que fica dessa lacuna que Jô Soares vai deixar.

Bom mesmo só para quem está na arquibancada da vida além. Um beijo no gordo!

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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