20 de julho de 2024
Ligia Cruz

O Atol de Moruroa


No ano de 1995, vários países do mundo manifestaram repúdio aos testes nucleares que a França fazia na Polinésia francesa. A cada três semanas havia uma explosão com potência acima da devastadora bomba de Hiroshima. A ponto de até a Rússia e a China, nações politicamente mais fechadas, protestarem contra os testes nucleares, questionando o governo francês pelo descumprimento do acordo do desarmamento assinado pelas principais potências mundiais.
O atol de Moruroa, aquele tipo de arquipélago paradisíaco quase caindo do mapa que todo mundo quer passar férias, foi o cenário escolhido para detonar bombas. As consequências catastróficas para o meio-ambiente daquela região do Pacífico sequer foram levadas em conta. As espécies marinhas, aves, flora e os demais habitantes humanos da Polinésia não foram respeitados pela França.
À época, a Nova Zelândia e a Austrália romperam as relações diplomáticas, chamando de volta seus embaixadores. O próprio Japão, que saiu destroçado da Segunda Grande Guerra, pelas explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki, protestou com veemência.
Ninguém queria reviver os horrores das batalhas travadas na Europa, na África e no Oceano Pacífico, nos anos 1940. Feridas muito profundas para esquecer em apenas 50 anos. Só a França parecia não ter aprendido nada com a invasão nazista que rendeu e bombardeou as mais importantes cidades do país, inclusive Paris.
O sofrimento do povo francês só acabou pelos esforços dos países aliados formados em conjunto com os Estados Unidos e a Inglaterra. Só na França, perto de 568 mil pessoas, entre soldados e civis, morreram. Décadas e muitos milhões de dólares foram empenhados na reconstrução. Mas nunca foram computadas as baixas ambientais e o extermínio de espécies em qualquer lugar da Europa.
O certo é que, onde a ganância e a estupidez humana reina, a devastação acontece. As ex-colônias africanas que o digam. A França invadiu com volúpia desmedida e não deu conta. A floresta congolesa era só uma porção de mata primitiva e não passou disso. O fato é que o país não podia ficar de fora da corrida imperialista.
Tudo isso para lembrar que a dona da Torre Eiffel dos postais não é nenhuma reserva moral ambiental para se colocar acima de qualquer nação constituída. Dar um “passa-moleque” em um líder de qualquer país democrático é de uma descortesia diplomática típica de quem perdeu o bonde da história e não sabe mais para onde vai.
A arrogância de Emmanuel Macron é bem maior do que sua compreensão histórica.
Certamente não fez a lição de casa.
Somente em 1996, após manifestações em todo mundo, o Atol de Moruroa encontrou seus dias de paz.
A nossa vizinha Guiana Francesa, colônia invisível da América do Sul, admite a prostituição infantil – deu em documentário na TV.
Do meio-ambiente de lá não se sabe nada; e quem sabe alguma coisa?
A Polinésia Francesa sabe o que se passou há apenas 24 anos. Viver para ver e contar a história.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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