14 de abril de 2024
Colunistas Ligia Cruz

Namorico com o Irã pega mal

Foto: Google Imagens – Gazeta do Povo

Dia sim, dia não, é uma pataquada diplomática em que o governo brasileiro se mete. No meio da semana um discurso de Lula, feito para a solenidade da Revolução dos Cravos, para comemorar o fim da ditadura salazarista, foi vetado pelo parlamento português. Embora não divulgado, pode-se imaginar o conteúdo lacrador afinado com a agenda globalista para quem esse governo abana o rabo. Em resumo, lá não colou. Até segunda ordem.

Agora, permitir a atracação de dois navios de guerra iranianos, no Rio de Janeiro, para abastecer — ou reunir “un petit comité” secreto numa festinha — conforme se aventa por aí e sequer foi desmentido –, desceu como um paralelepípedo goela abaixo de países aliados.

O fato rapidamente causou mal-estares nas embaixadas de Brasília, cujos governos abominam essa ditadura teocrática que atropela todos os direitos humanos e civis e assassina pessoas como quem pisca.

Quero crer que realmente tenha sido uma pisada na bola e não um apoio “enviesado” ao país que tripudia os direitos humanos e pratica tortura e assassinatos.

Jovens foram mortas no final do ano passado por se manifestarem pela liberdade de ir e vir e se expressar. Elas desapareceram e foram encontradas sem vida, com sinais de tortura. Uma delas perdeu a vida porque uma mecha de cabelo se aventurou para fora do hijab (véu muçulmano), em público. Essa é uma prática recorrente no fundamentalismo iraniano e o mundo sabe disso.

Como um governo que questiona a falta de liberdades democráticas em sua bíblia sagrada, como o PT, pode ser tão parcial a ponto de dar guarida a seus compinchas em território brasileiro? Cadê a Cida Gonçalves, ministra da Mulher que sequer se manifestou sobre o fato? E nem mesmo se opôs formalmente à essa ditadura que mata mulheres por motivos torpes?

A decisão aparvalhada de Lula irritou países aliados, como os Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel, com quem o Brasil mantém acordos bilaterais sólidos.

O presidente se esquece de que é mero signatário de um cargo público temporário, como qualquer chefe de nação eleito. A sua soberba e arrogância o nivelam com a estatura mais rasa de alguns líderes latinos mequetrefes. E ainda nos meteu num imbróglio para lá de complicado.

Seria o fato um efeito do telefone sem-fio bastante ativo com o verdugo venezuelano, que celebrou, em meados do ano passado, um amplo acordo de cooperação com o presidente iraniano Ebrahim Raisi? “Ayudame con eso compá!”. Por aí.

A mente de Lula está obcecada em destruir o ex-presidente e afetada por sua “mágica” restauração ao poder, que se esqueceu de que o Irã é arqui-inimigo dos americanos.

Talvez, o próprio Joe Biden não se lembre de que o brasileiro esteve na Casa Branca, no início de fevereiro último, para assinar acordos bilaterais entre seus países e, a tiracolo, apresentar sua indefectível consorte.

Mas o abalo teve efeitos além. O Irã não reconhece o Estado de Israel e ambos são desafetos figadais. Eles mantêm seus mísseis apontados um para o outro, desde que começaram a divergir sobre a geopolítica do Oriente Médio, com os sauditas no encalço. Aliás, Arábia e Irã travam uma guerra sem fim por questões de dominação territorial e político-religiosas.

O povo iraniano não é árabe, é persa xiita. Os sauditas são sunitas. Não se bicam desde o princípio do Islã. A situação sempre foi muito tensa na região e não vai mudar. Não há acordos de paz capazes de arrefecer os ânimos por lá.

Basta dizer que o Irã já deu sinais de que está construindo sua bomba atômica, alega ter um exército com 11 milhões de soldados (entre homens e mulheres) e máquinas de guerra super-potentes, capazes de destroçar o inimigo. É o que dizem.

Na Segunda Guerra Mundial, em 1941, o Reino Unido e a Rússia atacaram o Irã e reverteram o domínio sobre a Geórgia, Daguestão, Baku, capital do Afeganistão, e a parte caucasiana da Armênia. O objetivo, em tese, era controlar fontes de petróleo.

O Irã nunca engoliu essa derrota e não esconde a ambição de dominar a região do Levante (todo o Oriente Médio) sob seu controle outra vez, como foi no passado distante, onde anexou civilizações e vários impérios. O único que invadiu a Pérsia, antigo nome do Irã, foi o macedônio Alexandre Magno.

Difícil imaginar que Lula saiba algo disso e sobre a dimensão do lastro histórico que os iranianos têm, mesmo os que hoje discordam do regime tirânico dos aiatolás. O Brasil pacificador não conta para eles, além de um interesse geopolítico. São peças se movimentando num tabuleiro que ninguém quer perder.

A revolução islâmica, que implantou o atual regime, ocorreu em 1979 e pôs fim à dinastia do Xá Mohammed Reza Pahlevi que tomou o poder em 1925, no lugar de seu pai. A família viveu em opulência até ser deposta pelos islâmicos xiitas.

No passado, um embate com os iranianos custou a cabeça do ex-presidente americano Jimmy Carter. Ele perdeu a reeleição porque administrou mal uma rebelião estudantil que tomou o controle da embaixada americana, na capital Teerã, como protesto ao asilo dado pelos EUA à família Pahlevi. Foram 444 dias de crise que manteve ao final 52 reféns.

Como retaliação, Carter simplesmente cancelou a importação de petróleo no valor de US$ 8 bilhões de fundos, depositados em bancos do país. Fez também a tentativa mal sucedida de retomada da embaixada num dia que houve uma severa tempestade de areia, que derrubou helicópteros, matando soldados. Não deu para Carter, entrou Ronald Reagan.

Somente em 2020 ocorreu um confronto, ocasião em que os americanos mataram o general do exército de guardiões da revolução islâmica.

Mesmo com massivos embargos, o Irã tem se mantido às próprias custas desde a tomada de poder, com poucos players no mercado.

Até se fala na possibilidade de o país integrar os Brics, bloco em que o Brasil é signatário líder. Daí se justifica esse “namorico” na baía carioca. Tem coisa aí.

Apesar de ser um país totalmente fechado, cujas informações são triadas pela pelo poder hegemônico do aiatolá, líder supremo desse país fundamentalista, há uma tensão interna crescente, mesmo com todo o controle religioso e social. A falta dos direitos dos cidadãos, especialmente das mulheres, agrava a situação de rechaço do mundo inteiro.

Evitar tais deslizes diplomáticos não seria portanto uma proeza imensa. Algo como desconstruir o grande lego da política nacional e seus encaixes.

Boa parcela da mídia censurada e da população sabe que Lula ainda é o mesmo que usava o megafone para convocar greves nas portas das fábricas no ABC. No seu inconsciente prevalece o sujeito que come a metade das palavras, vocifera fel e atropela a ética e carece de uma estratégia refinada.

Bom-senso, semancol e uma boa dose de cultura geral aliviaria muito os desalinhos e a memória curtíssima do presidente de metade do Brasil. Assessores não dão conta de sua rebeldia e limitação. É o Lula, por ele mesmo.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

1 Comentário

  • RACHEL+ALKABES 13 de março de 2023

    Quem dera que um dia, com sorte, o Lula (presidente chamado por apelido é o fim) pudesse ler esse artigo realista e “quebrasse” esse inconsciente….

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