17 de abril de 2024
Colunistas Joseph Agamol

Time

Eu era garoto ainda, no Rio de Janeiro oitentista, quando ouvi pela primeira vez “Time”, do Pink Floyd, uma obra-prima dentro de outra obra-prima: o disco “The Dark Side of the Moon”.

Meu inglês precário, à época, até me permitiria compreender os versos nada herméticos da canção – mas eu era um roqueirinho aprendiz de guitar-hero, e fora seduzido pelos atributos musicais de “Time”: um rock vigoroso e envolvente, a voz catártica do guitarrista David Gilmour, e o magnífico e melódico solo de guitarra, a joia da coroa da composição.

Mas, ainda que eu tivesse encontrado um tempo – ops! – em minha doce rotina de estudante do Segundo Grau (era chamado assim à época: mudam os nomes e a educação só piora) do Colégio Estadual João Alfredo, sito à avenida 28 de Setembro, em Vila Isabel, e que consistia em matar o tempo – ops de novo ! – jogando vôlei em uma das três quadras da escola, fugir dos inspetores e observar o vai-e-vem das normalistas, o garoto de 17 anos que eu era não compreenderia a corrosiva crueldade, a doce melancolia – e a implacável verdade contida em seus versos:

“Você gasta descuidadamente as horas

Esperando que alguém ou algo lhe mostre o caminho…

Você é jovem e acha que a vida é longa,

Mas um dia você descobre que dez anos ficaram para trás

Você perdeu o tiro de largada.

Agora, você corre para alcançar o sol,

Mas ele está se pondo,

E dá a volta para ficar sempre atrás de você.

O sol é o mesmo mas você está mais velho,

Cada ano que passa fica mais curto

E você parece com cada vez menos tempo

Para planos que, afinal, deram em nada…”

Eu tinha só dezessete anos, repito, mas, mesmo que alguém tivesse me alertado que o sr. Tempo é um tira malvado, como bem definiu Stephen King, e que, já àquela época, estava rondando perto de mim, eu não teria dado atenção. Estava por demais ocupado fritando as horas, vocês sabem como é: também tiveram dezessete anos.

Hoje eu sei que ninguém, a partir de uma certa maturidade, fica imune à canção tão e seus versos simples, mas tão duros e tão inexoráveis – como o próprio Tempo.

Eu escrevi esse texto em uns 15 minutos, nos intervalos da minha série na academia. Por vezes tive a impressão de ver fugazmente o sr. Tempo, através do espelho. Mas provavelmente era só eu mesmo – me esgueirando de mim.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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