
Na queda de braço de Lula com Donald Trump, com certeza, tudo foi posto à mesa e a vitória não é brasileira como a mídia militante está divulgando. Há muitos vieses e revezes nessa história. E como agora tudo tem sigilo, só saberemos se o americano contar.
Trump não é um grande negociador à toa, aprendeu com o risco e a dor: quebrou seis vezes.
De 1991 a 2009, seis de seus empreendimentos, a maioria nas áreas de hotelaria e entretenimento, sofreram processos de falência e ele usou as leis em seu favor para renegociar as dívidas. Muitos investidores perderam dinheiro, mas no final ele sempre se deu bem. Os maus negócios não atingiram sua pessoa física.
Ou seja, também não chegou à presidência, pela segunda vez, à toa. Mas está longe de ser um herói como muitos brasileiros pintam. É um sujeito pragmático, preocupado com as questões domésticas e ciente de que a emoção não combina com os negócios.
Por esta ótica, Trump sabe que, numa negociação é preciso ceder em alguns pontos para salvar o principal. Foi o que ele fez. Deu à Lula o que ele pediu. Mas a lista no caso brasileiro não deve ser tão pequena e tem condicionantes.
Enquanto as especulações crescem na bolsa de apostas dos palpiteiros – sem nenhum demérito – no balaio cabem todas as possibilidades.
A saber: a preferência na exploração da terras raras, que é de extremo interesse de americanos e chineses; a soberania tecnológica da Starlink no Brasil (trunfo estratégico da aliança Trump-Musk); o afastamento da China como principal parceiro comercial; a base de Alcântara para o lançamento de foguetes; a contrapartida de tarifas mais equânimes dos produtos importados do Brasil, entre tantas outras.
Obviamente, ele deve ter exigido também que Lula pare de propagar mundo afora a adoção de moedas alternativas ao dólar nas negociações internacionais. O sistema SWIFT deve ficar como está. Isso para começo de conversa. Mas é só suposição.
Certamente há muitas outras questões, como “não se intrometa na Venezuela e nem na Colômbia”. Os Estados Unidos vão levar a cabo o propósito de implodir o tráfico de drogas na América Latina e caçar os narcotraficantes. Isso é promessa de campanha. Nicolás Maduro está no alvo e se Lula não largar a mão, cai junto. O que não seria mau, cá para nós.
Depois do início dessas conversações, Marco Rubio apareceu na mídia meio desenxabido, demonstrando certo desconforto com a desistência da aplicação da Magnitsky em Alexandre de Moraes, porque ele se empenhou pessoalmente e tem problemas viscerais com ditadores e violadores de direitos humanos, devido às suas raízes cubanas e histórico familiar. De fato foi uma inegável desmoralização.
Mas na política nem tudo é preto no branco. Tem os tons de cinza no meio e o mestre pintor da obra é Donald Trump. Ele apertou, não respondeu às bravatas e esperou Lula comer na sua mão. Não o contrário.
Contudo, é bom saber que há vozes dissonantes no governo americano contra a implantação de uma ditadura no Brasil. Mas Marco Rubio não dá a palavra final, embora não seja qualquer um e tenha total apoio da parlamentar republicana Maria Elvira Salazar e de outros políticos.
O silêncio sepulcral de Lula em relação às tratativas dos acordos que estão sendo negociados dá indícios de que, no geral, nem tudo é tão bom assim. Caso contrário ele estaria garganteando e jogando confete em si mesmo, como é do seu feitio.
A dificuldade de Lula é a de cumprir acordos quando os petistas mais encarniçados da base governista o apertam para radicalizar. Ele sempre reverbera o que ouve nos seus corredores. Por isso não vai conceder anistia e vai vetar a tal dosimetria, negociada pelo sindicalista corrupto Paulinho da Força.
O ódio antiamericano da extrema esquerda, que integra boa parte da base governista, não admite conchavos com o nauseabundo tio Sam da “guerra fria”. Essa gente ainda está presa à heroica epopeia de Lenin, Stalin e da camarilha soviética, que nem mesmo Vladimir Putin considera mais.
O “cala boca já morreu” não vale quando a barata voa para cima do exército militante: é gritaria na certa. A homogeneidade que todo mundo de fora pensa que a esquerda tem, não é bem assim. O pau come lá também. A diferença é que ninguém expõe as divergências na mídia, como a direita faz com seus pares.
A tática de convencimento de Lula junto à militância ainda é eficaz. Um mitômano de envergadura como ele consegue realizar proezas dentro de casa porque creem nele.
Para o petista, a conta é simples. A Magnitsky caiu por seu mérito. Virou herói e liquidou a sua fatura com Moraes, que o colocou na presidência. E o que ele quer em troca? A próxima eleição, com a garantia da prisão e expurgo dos principais opositores, cujos mandatos estão sendo caçados um a um na canetada, a cabeça de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e a ruína de todos que o colocaram na cadeia. O triunvirato Moraes-Dino-Toffoli está empenhado nisso.
A guerra tarifária perdeu o protagonismo de largada porque é do poder sem esforço que se trata, ninguém fala mais. O exercício da vaidade, a política rasa e o atropelo das liberdades democráticas são substantivos.
E sobre Bolsonaro e os presos políticos, o que Trump pensa? Ele lamenta, mas se o próprio Bolsonaro cedeu sua candidatura ao filho Flávio, que vai para o sacrifício, com o risco de perder seu cargo no senado, o que ele pode fazer? A direita não se organiza e não sabe jogar. As próximas eleições estão bichadas antes de acontecer. Talvez Jair também tenha esperado demais por um milagre estrangeiro que não veio.
O fato é que tem muito caroço nesse angu e qualquer coisa que se diga é mera especulação. Entre o desejo de justiça e a realidade há uma trincheira profunda a transpor. E quem está negociando do lado de cá é um péssimo político, sem credibilidade alguma e um mau-caráter, que só visa os próprios interesses.
Trump não está nem aí com as nossas miudezas, não é da sua conta.

