20 de julho de 2024
Ligia Cruz

Dia santo


No século passado, num dia como este eu sumi de casa. Tinha uns oito para nove anos. Era proibido sair sem avisar até para ir ao portão. Me esqueci completamente da quentura dos tapas e fui atrás do homem que estava distribuindo balinhas na rua.
Minha mãe sempre dizia: “não aceite balas de estranhos!”. Atrás dele, um bando de crianças barulhentas gritando: “eu quero! Eu quero”! E porque eu não? Meu bairro estava em festa e as crianças com punhados de balas nas mãos. Nem me dei conta que ao segui-lo eu estava me afastando de casa mais de um quarteirão.
Nessa época, para mim tudo era longe, grande, a ladeira que levava à avenida mais próxima era imensa. E o homem, que não era o do saco, mas das balas, dirigia-se para a rua de cima.
Por mais medo que eu tivesse dos meus pais, me lembro de ter sentido uma certa sensação de liberdade. Eu estava descalça, o que era comum às crianças em uma cidade praiana. Vestia um shorts de elástico nas pernas e uma blusinha, que minha mãe mesma havia feito. Aliás, ninguém comprava roupas prontas. O saldão de retalhos das lojas de tecidos seguia de boca em boca e todas as mães ficavam sabendo. Tínhamos a roupa “de casa” e a “de sair”, que não passavam de três ou quatro. Um guarda-roupa dava perfeitamente para a família de quatro pessoas.
Mas lá estava eu correndo atrás do homem naquele fim de tarde junto com as outras crianças. Logo anoiteceria e eu não tinha me dado conta. Sabia que a noite era cheia de sombras e perigos. Até que o homem parou em frente a uma casa simples, de muro baixo, pintada de azul, cuja porta era emoldurada por uma roseira trepadeira branca.
Naquele dia, especialmente, a casa estava enfeitada e as pessoas lá dentro cantavam. O homem convidou todas as crianças a entrarem, pois lá havia uma mesa inteira de bolos e doces. Quem não iria? Alguns desistiram mas eu não. Me deparei com uma sala grande e em uma roda pessoas cantavam, batiam palmas e falavam como crianças. Me aproximei da mesa, peguei uma fatia de bolo e com olhos enormes, que quase não cabiam na cara, fui olhar o que era tudo aquilo; afinal eu não conhecia as pessoas daquela casa.
Quando me aproximei, uma mulher me pegou pela mão e dançando comigo começou a gargalhar e falar coisas sem sentido. Eu não estava entendendo muita coisa, mas sabia que tudo aquilo era uma grande brincadeira. Era um dia em que os adultos faziam de conta que eram crianças, falavam bobagens e chupavam pirulitos.
Logo, eu me vi no meio da roda, sentada no chão, dividindo o bolo com alguém dali que se sentou comigo e me convidou a jogar pedrinhas. Eu segui o script como se fizesse parte daquele teatro infantil. O cheiro de alfazema impregnava o local e vez ou outra alguém girava e se “convertia” numa criança.
Apesar de tão pouca idade, não me era estranho o que estava acontecendo ali: era uma “festa de santo”. Um não, dois: Cosme e Damião, cultuados por diversas religiões, principalmente, pela “mesa branca” e a umbanda. Ali era uma casa de mesa branca. E os dois santos, irmãos gêmeos, também chamados de erês, eram cultuados com festas nesse dia, 27 de setembro, por toda a cidade.
Que mal havia em estar em uma festa de crianças? Aquilo tudo era tão contagiante que nem me dei conta que estava perto de anoitecer e eu estava fora de casa. A magia acabou quando vi minha mãe entrar pela sala aos prantos, me pegar pela mão e me dar um abraço.
Ela não me bateu. Chorava copiosamente como se tivesse me perdido para sempre. Os erês começaram a chamá-la de mãe, fazendo com ela o que fizeram comigo. Ela entendeu que a inocência fez de mim refém de algo que era uma tradição, festejada todos os anos. O sincretismo praiano misturava a fé católica com as outras religiões e todos conviviam pacificamente. Tanto os padres quanto as benzedeiras eram respeitados.
Ganhei um pratinho de doces enquanto minha mãe era acalmada pela dona da casa, uma senhora de meia idade, que se desculpava pela atitude do marido. “Voltem sempre!”, disse dona Eulália, que me viu crescer enquanto eu vivi ali.
Ao sairmos porta afora, o breu se fez e eu entendi: era tarde e eu não estava em casa! Ia levar uma sova assim que chegasse.
Mas não foi assim. Apesar da severidade, minha mãe era uma mulher de fé, que frequentava missa, procissões, mas que respeitava todas as crenças.
Nossa vizinhança era “cabloca-afro-católica”, se é que se pode chamar assim. E, se eu fui parar naquela casa, naquele dia, era por um chamado espiritual.
Meu pai estava muito bravo, mas minha mãe disse: “deixe a menina, ela não tem culpa, foi atrás dos doces de Cosme e Damião”.
Esse dia passou e eu comecei a compreender que a fé tem vários caminhos e segui-los é uma questão de escolha.
Na minha família essa liberdade todos tivemos. Mesmo meu pai, que se dizia ateu, me surpreendeu mesmo após sua morte, quando encontrei uma oração recortada de um jornal, dentro de sua carteira.
Hoje é dia dos irmãos santos, dos ibejis, dos erês.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *