14 de abril de 2024
Colunistas Ligia Cruz

Desgosto profundo

Tenho uma amiga que resume seu desassossego em uma simples frase: “que desgosto profundo”.

Para mim, desgosto já está na fronteira de algo “muito ruim”. Então, não me passava pela cabeça qual seria a profundidade dessa coisa.

Após tanto ver, acho que agora tenho  alguma ideia do que ela sempre tentou exprimir. Não sem antes constatar quantos calos já adquiri pela vida e quantos deles doem.

O meu receio sobre até onde chega esse fundo é porque ele pode ser abissal. Aquela zona das profundezas marinhas  onde habitam aqueles peixes esquisitos, com lanterna frontal, bocarras com fileiras de dentes pontiagudos, corpos luminescentes que reduzem a escuridão para encontrar as presas, entre tantos outros

Naquele mundo abaixo dos dois mil metros dos oceanos tudo é adaptação. Nem mesmo a imaginação humana é capaz de produzir tantas espécies aterradoras e surpreendentes.

Se lembrarmos das ilustrações produzidas nos tempos dos grandes descobrimentos, veremos sépias gigantes, de tentáculos enormes e baleias vingativas reduzindo caravelas a escombros. Mas também é possível ver que o homem, que registrava essas sagas, sempre flertou com as heresias de seu tempo, transferindo seu caráter destrutivo aos demais.

As doses de maldades sempre fizeram um Tiranossauro Rex parecer pueril diante dos humanos.

É a nossa arrogância que produz todos os monstrengos  e a crueldade em nada se compara  a dos que vivem entre nós. Na superfície mesmo, longe das profundezas.

São os conhecidos personagens que, de tempos em tempos mudam de nomes e vestimentas, mas que sempre cavalgam na insensatez da ancestralidade. Como se melhores que os demais fossem.

São essencialmente feios e se revezam para abocanhar mais do que podem. Choram sem sentimentos, mentem em proporções épicas e se acovardam sem pejo, para competir em um planeta onde só prosperam  medíocres e avarentos.

Todos eles se enfileiram na escala do tempo para disputas de poder, onde quem pode mais arrasta multidões de ignorantes e aduladores.

Os piores são os populistas e levianos ditadores que empunham cartilhas ultrapassadas numa mão e o veneno da discórdia e ignorância na outra.

São esses mesmos que fazem as guerras, promovem conflitos e matanças entre os seus iguais. Vale mais o que parece, não o que realmente é.

Tudo pela infâmia e o que se pode traduzir em poder. Não há limites morais e não importa a língua que se fale. O que muda é o contexto e a geografia nas profundezas abissais dos canalhas.

E segue o poviléu em uníssono louvor à estupidez humana, em obediência servil aos seus mandatários.  E  assim, esses domadores de consciências se eternizam numa linha de comando hereditária, que odeia o povo e se come por dentro.

É amiga! Um mergulho na rasa periferia da história para ver a proliferação dos seguidores de aberrações. Que desgosto profundo está tudo! Será que seremos livres algum dia?

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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