3 de julho de 2022
Colunistas Ligia Cruz

A cartada final

Um mês de conflito e o mundo reclama que a guerra na Ucrânia não acaba. O povo ucraniano sabe muito bem o que é uma guerra e o que está acontecendo por lá seria infinitamente pior, se Vladimir Putin quisesse. Ele está, pouco a pouco, minando as forças do país, fazendo um cerco a Kiev e tomando as principais cidades. Mas pelo visto o desfecho está longe de acabar.

Os russos não aceitam que a Ucrânia se torne uma ameaça para o seu país, até mesmo pelas ligações culturais ancestrais. Muitos têm parentes na Ucrânia e estes na Rússia. Seria como uma briga em família se houvesse um armistício para conversar. Mas todas as tentativas deram em nada. Nenhum dos lados quer recuar e Vladimir Putin não vai entregar suas fronteiras à Otan. Ponto. Resta saber até quando o ucraniano Volodymyr Zelensky vai impor esse flagelo ao seu povo.

Por trás dos que insuflam há interesses escusos, como os de Joe Biden, presidente americano, que tem por objetivo reiniciar a corrida armamentista e retirar o assento permanente da Rússia na ONU. Esse é o objetivo, não há nada nobre nas suas intenções e de “mocinho” ele não tem nada. É um velhaco em fim de carreira que envergonha até mesmo quem votou nele. Um erro que o povo americano começou a pagar. E em dólar.

Nada disso é novo. Rachar o mundo em dois novamente, aos moldes da guerra fria bipolar do passado, é uma fórmula desgastada que não interessa a ninguém mais. O mundo mudou. Mas os Estados Unidos querem reprisar todos os conflitos em que estiveram metidos depois da Segunda Guerra, que os levaram a encher as burras e os tornaram a primeira potência mundial de mercado do mundo. Só que, nesse mesmo tempo, os russos se tornaram a primeira potência bélica. Uma diferença básica.

A geopolítica dos países hoje leva em conta outros valores depois da unificação de Berlim e a libertação dos países do leste europeu do jugo soviético. Nem a Rússia de Stalin existe mais. A ditadura de esquerda também não é mais adepta da foice e do martelo. E até Lênin é deixado de lado, no seu mausoléu. O que lhe resta é o turismo macabro.

O país de Vladimir Putin, o sujeito mais odiado do mundo hoje, privatizou empresas, para colocar a Rússia na economia de mercado. Isso começou bem antes dele, quando Mikhail Gorbachev percebeu que havia muita insatisfação popular e tudo precisava mudar. Por obra dele houve a Perestroika e a Glasnost, movimentos de transparência e reestruturação pregados desde os tempos da revolução de 1917.

Essa reestruturação fez parte de uma estratégia bem sucedida, implantada entre 1985-1991, que visava tirar a URSS do atraso. O tempo passou e nada mais era como antes.

Após a saída desastrada do presidente russo Boris Yeltsin, ele não tinha mais pulso para liderar o futuro da Rússia. Putin, o primeiro ministro, chegou ao poder.O país precisava de um presidente confiável que projetasse o destino dos russos para além do sofrimento do que foram os anos por trás da cortina de ferro. Havia um passado heroico dos povos que ali lutaram e passaram a coexistir naquele pedaço do mapa a ser resgatado. Terras muito férteis e a promessa de viver longe do passado de fome motivaram as mudanças.

Após a derrubada da monarquia pelos bolcheviques, em 1917, o estado se assenhorou de tudo. Cinco anos depois, todo o entorno da mãe Rússia, foi anexado como parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Tamanho poder não agradou ao que se convencionou chamar de “ocidente”, leia-se Estados Unidos e aliados. Muita concentração de riquezas sob o domínio de um regime mão de ferro.

A anexação de países vizinhos e seus cidadãos nunca foi uma história bem resolvida na antiga ex-União Soviética. Ao longo de 69 anos, todas as tentativas de rebelião foram sufocadas por Joseph Stalin e seus sucessores. Talvez, a única concordância entre o governo stalinista e países europeus e aliados foi no cerco a Berlim, na Segunda Guerra Mundial, o que decretou a derrubada do regime nazista.

Imagem: Google Imagens – Mercado Livre

Os russos jogaram a pá de cal sobre o exército de Adolf Hitler. O ocidente precisava da fúria stalinista para acabar com a guerra. Ele marchou sobre a capital alemã e se vingou dos massacres nazistas na Rússia. Assim começou outro capítulo da história.

Desde então a União Soviética/Rússia investiu em armamento bélico e se tornou a maior potência nuclear do mundo.

Mas europeus e aliados querem ver Putin pelas costas. O antigo desafeto de todos mantém a sobrevivência energética deles num cofre. E poderia, a qualquer momento, desligar a chave. Mesmo com todos os embargos, o russo quer conversar.

Do outro lado da mesa, Biden fica propagando pelo mundo que a Rússia vai utilizar armas nucleares na Ucrânia, para elevar a temperatura. Um sádico, idiota.

Resta saber se os europeus o levam a sério ao ponto de entrar no jogo de war dos americanos.

Infelizmente, resta para Ucrânia o ônus da escolha que fez ao invés de negociar uma saída para a paz. Ninguém tem razão.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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