Olhos nos olhos

Imagem: Arquivo Google – JW.org
E os abraços que não dei,
Os beijos que não roubei,
Os sorrisos que guardei…Desde muitos séculos, os cavaleiros na Europa passavam em fila por esculturas de metal na forma de leões cachorros, falcões e tocavam nelas antes de partir para uma batalha ou viagem. A mesma coisa, figuras em metal para bater nas portas das igrejas e das casas.  Bater e entrar e ser bem recebido.

Nas tabernas, a prática do brinde, para quem chega, o desconhecido que se apresenta. O grande filósofo Tomás de Aquino, o santo, sabia bem disso…

Mas “olhos nos olhos”. Se o outro abaixasse ou desviasse o olhar, estava descartada a amizade, a parceria ou seja lá o que fosse. Na leveza das palavras foi dito: os olhos são a janela da alma.

Os povos que foram submetidos a regimes totalitários ou todas as vítimas de situações atrozes falam com os olhos. Quantas vezes as pessoas não podem falar, mas tentam dizer e nós não “enxergamos”. Não as “enxergamos” e não “vemos” a verdade ou a realidade.

Olhos nos olhos…

Os alemães não são frios, nem os escandinavos ou os russos e nem os chineses.
Olhe nos olhos deles. Num metrô ou trem.
Num supermercado.
É possível identificar sorrisos nos olhares, tristeza, angústia e… o mal!

Até na colocação dos discursos e das palavras…
Desenvolver a sensibilidade.
Alguns naturalmente são assim.
Tem esse dom, essa sensibilidade.
A maioria?
Nem vendo, enxerga…

Para ver além é preciso enxergar a si mesmo.

Parar de projetar nas pessoas o que nós queremos que elas sejam ou imaginamos que são.

O discurso é direto.  O olhar “papo reto”!

Aprendi a agir com gentilezas quando nessas voltas que o mundo dá e nas voltas que dou pelo mundo, o olhar de alguém sobre mim fez toda a diferença.

Num simples dia eu puxando uma mala em Paris atrasada para uma reunião, pergunto a um sujeito que ia dar partida na moto: “bonjour – nunca se começa uma conversa em Francês sem um bonjour ou bonsoir –  poderia me ajudar? Onde fica  tal rua e tal hotel?

Ele desligou a moto, tirou o capacete, olhou bem nos meus olhos por uns segundos, buscou a localização no celular, deu um sorriso e me explicou o percurso.

Agradeci e fui arrastando a malinha. Estava com o joelho arrebentado (cuidado! Ao decidir ser “atleta”, esportes também trazem consequências e é preciso ter consciência e estar preparado para elas).

Aí o sujeito para a moto do meu lado. Tirou o capacete, me segurou com as duas mãos, olhou nos meus olhos e disse:
o olhar está no off? Por quê?

Eu disse que tinha voltado de um final de semana nas montanhas e acordei mal conseguindo pisar,  peguei o trem pra Paris e tinha compromisso. Mas estava morrendo de dor. Perguntei como percebeu.

– “Sou oftalmologista”, disse. Ri alto!
– “Não, não é piada! Estudei Medicina, sou oftalmologista e desenvolvo pesquisa sobre hábitos e exercícios com os olhos para adiar problemas na visão que vêm com o avanço da idade. E como os meus pais são as principais cobaias, como não identificar o olhar?

Ele estacionou a moto, pegou a minha mala, me deu o braço e fomos conversando por alguns metros até entrar na ruela onde ficava o pequeno hotel. Agradeci e disse que estava atrasada. Ele foi lá buscar a moto e me deu uma carona até o metrô.

Resolvi comprar um croissant e um café antes de entrar no trem e a atendente no caixa parecia um Pierrot na quarta-feira de cinzas. O cabelo desgrenhado, postura largada e os olhos?

Olhei nos olhos dela…  apagados!

Bonjour, eu te desejo um dia lindo. Você tem olhos lindos e esse Monsieur aqui na fila também. É tão bom a gente encontrar pessoas que fazem nosso dia melhor. Um lindo dia pra vocês…

Imediatamente os olhos deles brilharam, curiosos, a postura mudou, o sorriso apareceu no rosto deles…

Merci, Au revoir!

Porque todos nós precisamos de beijocas, sorrisos, piadas e leveza.
Pra você, aquele abraço…
Bem apertado pra que nunca seja tarde demais e que possamos passar pela poesia e a prosa sem ser personagens dela:
“…os abraços que não demos, os beijos que não roubamos….”

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