A resistência nos tempos do Bolso : parte 2

Frido acordou, entorpecido. Entreabriu os olhos. Estavam pesados, sentiu-os grudados com, sei lá, Nutella. Tentou se mover e descobriu que suas mãos estavam imobilizadas com grossas cordas. À sua frente, um homem fardado, de costas, manuseava objetos indistintos em uma bancada. Frido gritou, um berro de raiva e indignação, um urro primal, de bicho acuado e feroz, um brado retumbante contra toda forma de fascismo:
– NÃÃÃÃÃÃO!
O homem fardado se virou, a luz incidindo em cheio em seu rosto. Era o Brad Pitt. Trajava uma farda como a usada pelo coronel nazista em Bastardos Inglórios. Frido gritou. Um pouco mais baixo. Na verdade, ele balbuciou – sem muita convicção:
– não… er… talvez, quem sabe… não, não…

O coronel que era o Brad Pitt sorriu. Frido sentiu uma coisa, um troço, ai, ele não sabia explicar, viu?
Brad – agora era só Brad – se aproximou, as mãos estendidas, os cabelos longos e loiros recebendo um jorro de luz do sol e…
– Duaaaaaaaaaaaaaardo!!! Eduardo Brígido, porra!!! Já varreu os pelos dessa gata excomungada?! Já espirrei três vezes, cacete!
Eduardo – quer dizer, Frido – foi arrancado brutalmente do sonho. Isso era bom. Se o Brad Pitt se aproximasse mais e o submetesse à seja lá o que for que ele estava planejando, ele, Frido, não responderia por si!
– Dudu! Anda, menino!
Conformado, Frido levantou e foi limpar os pelos da gata. Que droga, parecia que a Fifi produzia uma pelagem de Inverno por dia! Por que ela não engolia a droga dos pelos como os outros bichanos? Bichanos. Tinha que parar de usar essa palavra. Não combinava com o líder intemerato da R.O.L.A., Revolucionários Organizados na Luta Ativista, organização de resistência contra o governo do Ele-Não.
Pensar na R.O.L.A. o deixou preocupado. O grupo andava cabisbaixo e não estava levantando, por mais que ele se esforçasse. Além dele e da fiel – ok, nem tão fiel – escudeira Leona, entraram na R.O.L.A. apenas mais dois membros: o sem-teto da esquina e o biriteiro do bar em frente à organização, um aposentado chamado Nelzo.
Frido os considerava peças-chave no seu projeto de conquistar corações e mentes do lumpem-proletariado, e achava que os trouxera para a R.O.L.A. graças à sua poderosa retórica de convencimento marxista-leninista, mas a verdade é que tanto o mendigo quanto o aposentado nutriam a secreta fantasia de comer Leona e não estavam nem aí para a R.O.L.A.
Ou até estavam mas em outro contexto.
Frido pegou o IPhone – se a classe trabalhadora tudo produz, a ela tudo pertence, embora ele próprio nunca tivesse trabalhado, sendo aluno de Ciências Sociais há uns 12 anos – e ligou para Leona. Baixou a voz. Podia estar sendo hackeado, vai que.
– Companheira Leona… onde você está? Câmbio.
– Frido… não posso falar agora… estou numa missão na Caixa Econômica.
Frido exultou interiormente. Parecia que todo o trabalho de reeducação de Leona surtira efeito! Ela estava na CEF! Em uma MISSÃO! O que seria? Desapropriar bens de porcos capitalistas?
– Leona, qual é sua missão? Reconhecer terreno? Preparar uma invasão? Câmbio!
– cê tá doido, Dudu, quer dizer, Frido?! Eu vim ver como faz pra sacar os 500 paus do FGTS! Tá na minha vez! Tchau! Quer dizer, câmbio!
Frido baixou a cabeça e enfiou o rosto nas mãos. A mãe berrou de novo lá de dentro:
– Eduardo Brigido! Eu vou jogar essa gata no Campo de Santana, tu vai ver só!
(Frido e Leona vão voltar)

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *