11 de agosto de 2022
Colunistas Joseph Agamol

Uber sem conversa

O Uber Comfort, modalidade que permite ao passageiro optar por um serviço, entre outras opções, “sem conversa”, chegou ao Brasil. Misantropo como sou, chamei alegremente a novidade. Veio rápido. O nome do motorista é Aníbal. O cartaginês. Conhecem? Quem mandou não dar bola para História?

(Motorista): seu Joseph?!

(Eu, pensando, “já começou mal… sem conversa é sem conversa, ora pitombas!”. Respondo com um grunhido ininteligível)

– grofnhé.

– fica à vontade, viu? Quer balinha? Água? Wi-Fi? A temperatura do ar está adequada?

Eu penso o quão adequado seria disparar um jab curto e seco. Direto no nariz. Mas me contento em grunhir de novo.

– grofnhá. Está.

– então… o sr. é daqui mesmo? Pelo sotaque é do Rio, não é MERMO? BiXcoito? EXqueci o iXqueiro na eXquina? Hahaha !!! Ops, desculpe, o sr. pediu “sem conversa” e tô eu aqui falando pelos cotovelos… Toca os burros!

Eu sorrio, mais ou menos como sorriria o Darth Vader dentro daquela máscara, em um dia de verão em Bangu e sendo sacaneado pelo Han Solo. Mas toca os burros.

Silêncio. ABENÇOADO silêncio. Eu procuro a página onde parei em O Instituto, livro novo de Stephen King.

O motorista – Aníbal, o nome dele, por algum motivo achei que era Asdrúbal ou Aderbal. Onde tô com a cabeça?

Aníbal, o general de Cartago que pensou em conquistar Roma. Fico HORRORIZADO achando que FALEI isso para ele, mas eu só pensei. Ufa. Toca os burros.

O motorista se remexe no banco, inquieto, como se tivesse oxiúros.

Abre o porta-luvas. Fecha. Abre de novo.

Procura um óculos inexistente. O queixo pende levemente para baixo. Um fio de saliva escorre. O olhar está esgazeado.

Eu sinto que ele NÃO CONSEGUE SE CONTER. É mais forte que ele. Ele vai falar, certo como o dia sucede à noite e há um pote de ouro no fim do arco-íris, guardado por um gnomo de sapatos verdes pontudos.

Ele parece à beira de uma síncope, de um ataque apoplético, sei lá. Me compadeço.

– então, seu Aníbal… o senhor conhece a história de Cartago?

Brota uma lágrima nos olhos do pobre homem. Ele parece a ponto de me beijar de tanta alegria. Pelo sim, pelo não, me encolho preventivamente, interpondo uma distância segura entre nós. E me preparo para uma LONGA viagem.

Toca os burros.

Sem conversa.

Bah, como diria o Tio Patinhas.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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