1 de julho de 2022
Colunistas Joseph Agamol

Macarrão na manteiga

Ontem fui convidado para almoçar em um desses restaurantes considerados “chiques” de Sampa.

E me surpreendi ao ver no cardápio: macarrão na manteiga. Foi o bastante para que eu, viajante do tempo, ouvisse meu nome ser chamado por hipotéticos alto-falantes num também hipotético aeroporto espaço-temporal.

Imagem: Google Imagens – Sabores Ajinomoto

Boa parte da dieta de boa parte da minha infância/adolescência foi apoiada no seguinte tripé: – feijão com arroz.- ovos.- macarrão na manteiga.

Se bem que “manteiga” é licença poética: em minha casa usava-se mesmo era margarina – a mais barata. Claybom. Delícia. Algo assim.

Mas a opção pela “manteiga” não obedecia a quaisquer ditames gastronômicos: o dinheiro não era o bastante para luxos tais como molhos naquela casa simples de Bonsucesso, subúrbio do Rio.

Era o macarrão na manteiga que não era manteiga, ou ovos – um ovo – mexidos, cozidos, fritos, com os onipresentes feijão preto e arroz branco, a dupla dinâmica. Carne? Frango?

Eu até acreditava em sua existência, como acreditava no Abominável Homem das Neves, mas carecia de provas.

E assim a vida navegava no Rio de Setenta, compondo as lutas silenciosas travadas pelo alento de cada dia com doces canções como nunca, nunca, se compuseram mais.

Hoje, o que eu comia na infância é um item de menu de restaurante de luxo.

Mas aquele macarrão na manteiga, comido com o prazer de quem não sabia se haveria almoço no dia seguinte, harmonizado com a bittersweet música de Carole King, tão distante e, ao mesmo tempo, tão vivo no paladar da memória, vai ter sempre o sabor de estar em casa novamente.

author
Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.