14 de agosto de 2022
Colunistas Fernando Gabeira

Diário da crise CXIII


Nessas que foram suas últimas semanas de vida, Alfredo falou comigo, longamente, ao telefone.
Usava máscara e, às vezes, falava em movimento. Nem sempre o ouvia bem. Além disso, a ligação caia muitas vezes e nos divertíamos como se estivessem sendo ouvidos.
Mas não tínhamos mais nem a saudável dose de paranoia. Quem se interessa por ouvir teses sobre aquecimento global. Nosso censor dormiria com a testa apoiada na mesa.
Foi exatamente a complexidade do tema que fez com que Alfredo alternasse várias histórias de sua vida com suas reflexões sobre a necessidade de revolucionar o mundo para que a vida não se torne impossível com o aquecimento.
Ele decidiu que este era o tema central, o mais importante, que influenciaria todos os outros. E disse que ficou muito impressionado com uma esquimó chamada Sheila, se me lembro bem. Ela contou que às vezes fazia calor no Ártico e que isso era um prenúncio do que o planeta teria de enfrentar.
Alfredo achava que era preciso uma tríplice revolução: cultural, tecnológica e financeira. A cultural segue seu rumo lento, a tecnológica é mais fácil e tem dinâmica própria. Restava a financeira: ele via a necessidade de se criar algo como o padrão ouro para o carbono neutralizado. Cada tonelada de carbono aprisionada na natureza ou mesmo evitada na produção teria um valor e passaria a orientar a economia.
Na sua opinião, a Alemanha e a Noruega investiam na Amazônia com essa perspectiva: de compensar o Brasil por evitar a produção de CO2 com o desmatamento.
Infelizmente , Bolsonaro e Salles não compreendem isso. Viram uma manobra estrangeira nesse projeto e o trataram como tratam todos os temas importantes sob o ótica da teoria da conspiração.
Foi por aí que Bolsonaro interpretou a pandemia de coronavírus: uma conspiração contra seu governo.
O livro Descarbonário o ultimo de Alfredo Sirkis conta muitas histórias. Nem todas pude ler ainda, embora tenha participado do lançamento virtual.
De vez em quando escreverei sobre ele e sempre vou enfatizar sua luta que na verdade é a luta da nossa geração em homenagem à dos nossos filhos e netos.
Não me interessei muito pelos fatos do dia. No entanto, não pude deixar de me impressionar com o fato de terem encontrado R$ 6 milhões em dinheiro na casa do ex-secretário de saúde do Rio.
Que pena o que acontece por aqui. Depois da devastadora corrupção de Cabral, parece que os métodos continuam como se nada tivesse acontecido. Ou melhor, continuam numa pandemia, como se o desvio do dinheiro público fosse uma prática eterna, que usa todas as oportunidades, inclusive as mais trágicas, para consumar seu processo de acumulação.
Fonte: Blog do Gabeira

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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