1 de julho de 2022
Fernando Gabeira

Bom enquanto durou


Estava me acostumando, é hora de voltar. Um pouco mais, talvez eu me acomodasse
Depois de tanta retranca e de tantos pontapés, um jogo. Esse gesto de desenhar um retângulo no ar, indicando a tela de TV — e o VAR —, parece que contaminou o mundo. Jornalistas, torcedores, turistas, espectadores ocasionais, todos parecem fazer um retângulo no ar antes de emitir sua opinião.
Tenho assistido aos jogos em russo. Comentários e debates, também. Acho ótimo, pois não entendo nada. Só no dia seguinte consigo ver o que se passa no Brasil. Os debates são acalorados, mas felizmente há uma muita gozação recíproca.
Jornalistas esportivos não usam gravata, são mais leves. Alguns se politizaram com o tempo e ganharam a solenidade de um senador. Mesmo assim, só de vez em quando.
A Copa está para os jornalistas esportivos como Florença, para Leonardo da Vinci, no século XV: estimula a criatividade e a associação de diferentes disciplinas. É a biografia de Da Vinci que estou lendo no intervalo dos jogos e no tempo em que passo batendo perna, fotografando a Rússia.
O que une a todos é a paixão pelo futebol. Apesar de o meu trabalho não estar diretamente ligado a ele, assisti a todas as partidas, mesmo as mais tediosas, como Bélgica e Inglaterra, França e Dinamarca.
Confesso que foram poucos os lances que me fizeram saltar da cadeira, exceto, é claro, os gols do Brasil, por menos plásticos que tenham sido.
Os jovens não se lembram muito da tabelinha, consagrada por Pelé e Coutinho e muito comum no futebol brasileiro. Hoje há um tal bolo na área que as tabelinhas ficam bem mais difíceis. Parece que existe também uma barreira em que todos os chutes a gol esbarram e nas quais se perdem.
Tanto que alguns dos gols mais interessantes foram feitos bem de fora da área. Os de Cavani contra Portugal, Di Maria contra a França e Pavard contra a Argentina.
Eu sabia que o grande adversário seria a Bélgica. Acabaram vencendo, embora ainda ache que o nosso futebol é superior. A saída do Brasil muda toda a minha perspectiva. Trabalhei até o primeiro jogo da tarde. Passei a manhã na casa de Gorki.
Tudo muito bem, mas creio que tenha chegado a hora de arrumar as malas. A força que nos movia e o interesse pela Rússia dependiam muito do nosso futebol.
Isso não significa que o interesse vá desaparecer. Pelo contrário, levo muitas histórias na bagagem, e algumas delas vou escrevendo ainda por aqui.
Assim como iríamos comemorar juntos, vamos viver juntos a dor da derrota. Ela é muito diferente de 2014. Caímos jogando melhor no segundo tempo, perdemos alguns gols que em outras circunstâncias seriam imperdíveis — enfim, coisas do futebol. Como sempre, na vitória ou na derrota, ele nos prepara para a vida. E temos um ano cheio pela frente agora que, de uma certa forma, a Copa do Mundo deixou de despertar em nós um grande interesse.
Hoje acordei, chamei um táxi e, para minha surpresa, ele chegou na mesma hora. Fui ao museu, entrei no metrô e, num átimo, descobri a linha que me trazia de volta.
Estava me acostumando. Hora mesmo de voltar. Um pouco mais de tempo, talvez me acomodasse. Pelo menos esse é um consolo. A vitória talvez nos empurrasse para novos desafios.
Mas, falando em desafio, isso é o que não falta ao Brasil. Inclusive o de ganhar a próxima Copa do Mundo.
Artigo publicado no O Globo em 06/07/2018
Fonte: Blog do Gabeira

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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