22 de julho de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

Belfast romântica

Vi, revi, e quem ainda não viu precisa ver.


Vi, revi, e quem ainda não viu precisa ver.
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Foto: Helvio

Lembranças da infância sempre foram matéria fértil para o cinema. Desde Orson Welles em “Cidadão Kane” e seu “Rosebud” até Giuseppe Tornatore em “Cinema Paradiso”, diretores causaram nós na garganta e olhos úmidos à plateia revivendo memórias com as quais qualquer ser humano se identifica e se enternece.

“Belfast” – Oscar de Melhor Roteiro Original e Globo de Ouro para Melhor Filme em 2022 – teria lugar garantido na lista e comoveria muita gente se ficasse mais tempo em cartaz. Assisti ao filme numa sala de shopping em 2022 e, quando o indiquei aos amigos, já tinha saído de cartaz; ficou por poucos dias. Para minha surpresa, ele apareceu novamente, quase escondido no Prime, e então posso recomendá-lo e comentar a beleza dessa produção.

Nos anos 1960, a coisa estava feia na Irlanda do Norte, dividida entre católicos separatistas e protestantes fiéis à Coroa britânica. Foram quase três décadas de confrontos e violência, que mataram milhares e marcaram gerações. Belfast, a capital, vivia em tumulto pela presença de adversários morando lado a lado, dividindo ruas e quarteirões e provocando tensão constante entre vizinhos. Entre eles, a família de Kenneth Branagh – brilhante ator e o diretor de “Belfast”, que fez da obra um tributo romântico à sua cidade natal.

Branagh se coloca no papel do garoto Buddy, um menino de 9 anos que não entendia bem a guerra – até porque, caçula de uma família protestante acossada por desemprego e contas atrasadas, tinha duas paixões: o cinema e uma coleguinha católica. Felizmente, seus pais mantinham-se à parte da contenda político-religiosa e só queriam trabalhar, criar os filhos e viver em paz com a vizinhança.

A homenagem autobiográfica foi completa e sentimental. Com exceção de Judi Dench, inglesa, no papel da avó, os personagens centrais e quase a totalidade do elenco foram entregues a atores irlandeses. Ali estão Ciarán Hinds, que faz seu avô; Jamie Dornan, seu pai; e a maravilhosa Caitriona Balfe, de talento e beleza estonteantes, mais conhecida por interpretar Claire Fraser na série “Outlander”. A assistente de produção veio da família – Joyce Branagh, irmã de Kenneth. A trilha sonora é de mais um irlandês, o genial Van Morrison.

O filme é um retrato encantador da realidade, da vida sacudida por tempos difíceis, perdas e sonhos desfeitos; aquele tempo que, segundo dizem, faz homens fortes. Mas é também uma doce apologia a valores que parecem ter desaparecido: a união das famílias, a amizade entre vizinhos, o espírito comunitário, a solidariedade, a esperança no futuro. E tudo isso sem politicagem ou lacração: Branagh não usou “Belfast” para tomar partido, mas apenas reviveu as memórias afetivas de quando era criança.

Curiosidade: para capturar momentos de espontaneidade do pequeno ator Jude Hill – também irlandês –, Branagh acionava a câmera secretamente em cenas que o garoto achava ser apenas ensaios e usou muitas delas.
Em busca de uma vida melhor e segura, a família vai embora de Belfast, rumo a Londres, vivendo as dores dessa inexorável separação da cidade que tanto amavam e à qual sentiam pertencer. Certamente pensando em tanta gente com histórias similares, o diretor expôs em letreiros finais sua tocante dedicatória: “Aos que partiram, aos que ficaram e aos que se perderam”.

A última cena é especial pela rara beleza e significados sutis. Caitriona Balfe e Jamie Dornan, no ápice de seus talentos, trocam olhares enamorados enquanto dançam, numa festa, ao som de “Everlasting Love” – canção que entrou nas paradas pelo grupo irlandês U2. Aliás, música bem adequada à essência do filme: acima de tudo, “Belfast” fala de amores e de sentimentos que jamais se extinguirão.

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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