A solidariedade sempre nos surpreende

Hoje contarei uma história que, para além dos laivos patrióticos de amor pela nação e a retórica orgulhosa das ‘almas’ sensíveis as mazelas do povo, coisa vulgar às lides protecionistas que falam em seu nome e que me provocam profundo desprezo, um fato que parece comum me confirmou, mais uma vez, que o que me encanta de verdade – mais que o conceito de pátria, nação e vetustos poderes constituídos – são as pessoas reais.
Depois de ler a noticia de que os parlamentares-representantes do povo (sic) – torraram em um ano mais de 6 bilhões de reais em cotas para abastecimento de veículos, viagens e toda o vergonhosa despesa com mordomias e, ainda destilando minha repulsa por essa ‘casta’, seu Jorge, meu funcionário, veio comunicar o desfecho de uma missão que deleguei a ele.
A historia começa assim.
Meses antes da pandemia fui obrigado a parar meu trabalho por conta de um grave problema no ombro.
Duas exposições marcadas com antecedência foram adiadas, sem previsão de serem novamente programadas. No correr de quase dois anos meu ateliê ficou fechado. Sem perspectivas palpáveis do que viria a acontecer no futuro próximo, me vi diante de um grande problema.
Depois de todos os exames, em meados de fevereiro do ano passado, a cirurgia para colocação de uma prótese no ombro foi o recurso sugerido pelo medico e acolhido por mim.
Porém, com a pandemia, as cirurgias eletivas foram adiadas por tempo indeterminado.
Pela gravidade do problema e minha forte intenção de cessar as dores, o cirurgião vislumbrou uma janela e propôs realizar o procedimento em 1 de dezembro de 2020.
Aceitei sem titubear! Assim foi feito.
Há mais de três meses sem dores e feliz da vida com a melhora e a recuperação gradual dos movimentos, investi tudo na reforma do meu estúdio.
Cheio de esperança de começar de novo. Adoro os desafios do ‘começar de novo’ , em qualquer sentido existencial.
Pode dar tudo errado, mas o afã ‘de começar de novo’ é um balsamo para meu espírito.
No entusiasmo contratei os operários para refazer piso, paredes iluminação etc.
O entusiasmo traz surpresas. Comprei, no ímpeto, sem consultar os técnicos, todo o material que achava necessário. O ímpeto me levou a comprar mais que o necessário.
Erros de entusiasmos são sempre excessivos. Sobrou material.
Na pressa de acabar com o problema, decidi doar os sacos de cimento e areia etc para alguém que precisasse muito desse material. Encarreguei o seu Jorge para cumprir a missão.
Agora, o fim da história.
Hoje, ele me informou que decidiu doar excedente para sua vizinha na favela.
E o melhor da historia, que me leva a me encantar pelas pessoas, vem agora.
Ela aceitou e logo providenciou o levantamento dos custos desse material numa loja da vizinhança.
Então, converteu o valor em várias cestas básicas e doou para as famílias que passam por momentos difíceis, com pais e filhos desempregados.
Emocionado, mostrando o braço arrepiado de emoção, seu Jorge me contou orgulhoso resultado da sua missão.
Confesso que me emocionei!
Porém, não o bastante para fazer desaparecer minha repulsa pelos maganos do poder público que depenam os recursos públicos sem piedade.
Chamam gestos como o dessa senhora de solidariedade.
Para mim, solidariedade é um ato generoso que toca os corações sensíveis.
Porém, num canto da minha consciência, o que essa senhora fez é mais que isso.
Para mim, seu gesto se traduz em ética social, coisa rara, sobretudo para os maganos do andar de cima que solenemente. desprezam a ética e se esbaldam em surrupiar a coisa pública.

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