20 de maio de 2024
Erika Bento

Quem disse que ser saudável é fácil?


Entro na academia, meio sem jeito. Olho aqueles aparelhos todos que, no meu tempo, não pareciam tão grandes e intimidadores assim, mas sigo confiante. Havia marcado um horário com a instrutora para que definíssemos uma estratégia. Aí, ela me pergunta “Qual o seu objetivo?”. Começamos bem.
Qual o objetivo de alguém que procura uma academia? Tudo bem, não sejamos arrogantes. Pode ser para perder peso, tonificar os músculos, atividade cardio vascular ou até para encontrar uma companhia. Meu objetivo é o mais comum: perder peso e tonificar os músculos.
A instrutora, uma delicada e pálida menina de vinte e poucos anos, sorri para mim e me apresenta a esteira. Ah, esta eu conheço de longa data. Eu tinha uma em casa e, quando me mudei de Minas para São Paulo, enfiei a dita cuja dentro o carro e lá se foi ela comigo, a minha companheira de desafios. Quando me sentia frustrada, lá ia eu correr, suar e colocar os demônios pra fora, mas ela era diferente da que a menina me mostra. Esta tem televisão e tantos botões que me perco na explicação. “Uau!”, penso eu… “mas não é só pra subir e correr?”. Depois, me disseram que esteiras tem televisão há muitos anos. Só mais uma constatação do quanto fiquei longe do mundo!
Da esteira, passamos para bicicleta, para o remo e uma coisa tão estranha que não me lembro nem do nome. Parece que você está esquiando para cima em uma montanha móvel. Tentei uma vez, duas, três (sim, porque pisciana é teimosa mesmo) e concluí… não gostei. Aí a mocinha, com toda a paciência, diz. “Você pode diminuir a resistência para 1 se você preferir” (estava no 2). E eu respondo “Não tem nível zero, não?” E ela ri muito. Bom, eu também, fazer o que, né.
Definimos a rotina e começo a frequentar a academia novamente. Como era de se esperar, os primeiros dias eu pareço aquele cachorro que não quer tomar banho, sendo arrastado pela coleira, e ele se larga todo no chão fazendo cara de piedade. Então… a diferença é que não uso coleira e quem me arrasta é a melhor versão de mim mesma. Até cantar a música do Rocky eu cantava na minha cabeça!
Depois de duas semanas, já estou familiarizada com tudo e uso os aparelhos como uma profissional!
Um belo dia, um jovem bonito e sorridente se aproxima e começa a falar comigo. Eu não escuto porque estou no meio da minha corrida, com fones de ouvido e uma música eletrizante bombeando o meu sangue. Eu tento tirar os fones ao mesmo tempo que tento parar de correr e, no meu total desajeito, quase caio da esteira, mas com elegância eu contorno o vexame. Ele me pergunta se eu preciso de alguma ajuda. A cliente dele havia cancelado o horário e ele estaria livre para dar dicas ou ajudar no que fosse preciso. Hã… tento pensar em algo rápido porque, na verdade, eu queria ajuda sim, em como perder peso e ganhar músculo fácil e rápido! Mas, como todos sabemos, isso não existe, então, passamos a conversar sobre o que eu tenho feito para atingir o meu objetivo e ele me leva para um outro lado da academia que, para mim, era só para os “sarados”.
Aparelhos grande e pesos ainda maiores olhavam pra mim com ar de desafio. “E aí, cinquentona, vai encarar?”… Ah… quem me conhece sabe que eu a-do-ro um desafio.
James me apresenta alguns exercícios e aparelhos mais intensos para os glúteos, pernas, bíceps, tríceps e todos os músculos estranhos que vão do pescoço ao tornozelo. Ele me mostra como fazer e eu repito e vejo como o corpo da gente tem uma memória incrível. Mesmo não tendo o mesmo condicionamento de antes, meu corpo reage rápido e a postura alinhada da coluna, pernas e braços estão ali, prontos para a briga. James fica impressionado. “Yes!”, penso eu. Acho que isso vai dar certo.
Digo a ele que não posso me esforçar demais porque de noite vou para a minha primeira aula de Kung Fu e ele fica impressionado. Conto que já fiz artes marciais antes, mas tinha sido há muito tempo (não disse que foi há mais de trinta anos!), e que sempre tive vontade de voltar a praticar.
Terminada a sessão com James, sinto-me ótima, até o primeiro degrau da escada… minhas pernas pareciam gelatinas nervosas e tenho que segurar no corrimão para chegar ao final dos degraus. Quando saio da academia, está chuviscando e ainda tenho vinte minutos de caminhada até em casa, o que foi bom, porque os músculos vão se acomodando devagar e chego em casa inteirona.
De noite, lá vou eu para a aula de Kung Fu. Não é o que eu esperava. E não tem nada a ver com os anos passados, mas com técnica e estilo. Acho feio e sem fundamento. Não há uma preparação básica para as rotinas/coreografia, não há filosofia, só pancadaria, mas já que eu estou lá, o jeito é encarar.
Todos são muito atenciosos comigo, inclusive o instrutor que me deixa à vontade para fazer o treino no meu ritmo. “Ah, fica frio, eu dou conta”, penso eu. Ãhã… meia hora depois de correr de um lado para o outro do salão, toca a parede de cada lado, agacha, faz flexão, levanta, corre para o outro lado, toca a parede, senta, faz abdominal, corre de novo, toca a parede, faz polichinelo, corre de novo…. e… aaahhhh, para! Não dou conta! Meu coração está saltando pela boca e minha garganta tão seca que eu mal consigo respirar. Por sorte, a sessão tortura acaba e vamos para a parte de ataque e defesa em dupla. Ah, isso eu gosto.
A minha parceira é uma menina de doze anos. É… pequenininha e ágil, mas com dois anos de treino, já. Durante quinze minutos eu chuto, soco, defendo-me dos chutes e socos dela até que minhas pobres pernas e braços não aguentam mais e eu me rendo ao meu péssimo condicionamento físico. Vou me sentar e apenas assisto ao resto da aula. “Até semana que vem!” dizem os colegas e instrutor ao se despedirem de mim e eu penso “é, acho que sim”.
Na volta para casa, cada músculo do meu corpo grita de dor. Ombros, braços, peito, barriga, pernas… olha, dói até pra piscar! Quando me deito na cama, procuro uma posição confortável porque eu ficaria daquele jeito até o dia seguinte!
Quando abro os olhos de manhã e tento esticar as pernas, já era… eu ficaria na cama o dia inteiro se pudesse! Até o meu gato fica com pena de mim. Levanto da cama gemendo, arrasto-me para o banheiro e… as escadas. Oh céus, por que fui querer morar em casa de dois andares, por quê???? Com uma mão no corrimão e a outra na parede oposta (sim, as escadas aqui são estreitas assim) eu desço degrau por degrau e caminho feito um robô até a cozinha. Sorte a minha que férias existem e vou ficar em casa o dia todo! Mas, quer saber? Não tem coisa melhor do que sentir o corpo vivo, de novo. Os músculos sendo reanimados após anos de um coma profundo. Sentir o coração forte e a mente aberta.
Quando nascemos, nos é dado algo precioso e que é a única coisa que não volta: o tempo. Cada um tem um tempo útil e cada um de nós o usa como quer, mas só quando realmente nos damos conta de que cada segundo passado nunca mais vai voltar é que nos deparamos com a pergunta: o que eu tenho feito com o meu tempo?
Por mais dolorido que seja mudar de vida (e meus músculos que o digam!), você só muda para melhor quando usa o seu tempo para fazer o bem a si e ao próximo.
Eu ainda quero viver muito e saudavelmente, por mim e pelos meus filhos (embora eu ainda não consiga me levantar do sofá sem gemer).
E você, como você tem usado o seu tempo?

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