
O eleitor brasileiro está exausto. A democracia brasileira entrou naquela fase em que o eleitor já não escolhe um presidente. Escolhe o menos pior no cardápio eleitoral.
A insatisfação com as opções apresentadas atingiu um patamar tão agudo que as alternativas: o voto nulo, o voto em branco ou a melancólica decisão de “votar no menos pior” — deixaram de ser comportamentos marginais. Tornaram-se, na verdade, a tônica e o refúgio de uma parcela expressiva do eleitorado que não se sente representada pelas forças que hegemonizam o poder.
O eleitor já não vai às urnas movido por esperança. Vai por medo do outro lado. É o famoso voto “anti”: anti-Lula, anti-Bolsonaro, anti-sistema, anti-tudo. Falta apenas surgir o candidato “pró desânimo”.
Esta exaustão se manifesta de forma clara na crescente inclinação ao voto nulo, ao voto em branco ou àquela que se tornou a frase-símbolo das últimas eleições: a busca pelo “menos pior”. Longe de ser um sinal de apatia, essa tendência é um grito silencioso, um manifesto de que as opções apresentadas não representam os anseios de uma parcela significativa da população. É a consolidação de um sentimento de que, independentemente do resultado, o Brasil continuará dividido e os problemas reais, sem solução.
No centro deste embate, os candidatos majoritários, Lula e Flávio Bolsonaro, personificam essa divisão. Ambos possuem bases eleitorais extremamente fiéis e mobilizadas, mas que se mostram insuficientes para garantir uma vitória já no primeiro turno. O motivo é simples: a mesma intensidade que atrai seus seguidores é a que alimenta a rejeição de seus oponentes. Eles não conseguem agregar. Cada um fala para a sua bolha, consolidando posições em vez de construir pontes.
Eis então o retrato do momento: dois polos dominando a disputa, mas nenhum deles conseguindo produzir aquela onda capaz de liquidar a eleição no primeiro turno. De um lado, Lula tentando reeditar uma fórmula antiga e ultrapassada num país completamente diferente e endividado. Do outro, Flávio Bolsonaro carregando o sobrenome mais amado e odiado da política nacional ao mesmo tempo propondo ser “um novo tempo”. A rejeição dos dois é semelhante: 46% para Flávio e 45% para Lula. Empate técnico.
Para os lados do Palácio do Planalto, o episódio do vazamento do áudio de Flávio não se traduziu em um ganho automático de capital político. Os números indicam que o escândalo não beneficiou Lula de forma expressiva, salvo pelo aumento da distância por Flávio ter perdido pontos, evidenciando que o desgaste do adversário não se converte, necessariamente, em votos para o atual mandatário. A rejeição ao petismo segue operando como uma barreira rígida para a migração desse eleitorado.
Do outro lado, a resiliência de Flávio Bolsonaro causou espanto até mesmo entre seus correligionários mais próximos. Embora as pesquisas tenham apontado uma oscilação negativa do senador após a crise, a queda foi considerada pequena diante do potencial destrutivo do material divulgado. Para os aliados, o resultado foi um teste de estresse que demonstrou o alto grau de fidelidade e a blindagem da base bolsonarista contra denúncias tradicionais.
Mas o eleitor brasileiro tem uma característica que intriga analistas profissionais e encanta marqueteiros: ele absorve escândalos em velocidade industrial. O brasileiro tem memória curta e um novo escândalo esconde o anterior. O brasileiro médio paga imposto sem retorno, enfrenta fila, violência, inflação e burocracia desde cedo. Um áudio, portanto, pode entrar apenas como mais um item no pacote de horrores cotidianos.
O cenário que se consolida é o de uma eleição travada por trincheiras ideológicas intransponíveis. Enquanto os escândalos perdem a capacidade de mover as “placas tectônicas” do eleitorado, o cidadão comum assiste ao espetáculo com apatia. O risco real destas eleições não é apenas a vitória de um ou de outro projeto, mas o avanço do divórcio definitivo entre a classe política e uma sociedade que, cansada de escolher o “menos pior”, cogita seriamente em deixar a mesa de jogo vazia.
No fundo, o eleitor conservador continua enxergando na direita, apesar de seus tropeços, uma reação contra um establishment que considera arrogante e desconectado da realidade. E boa parte desse eleitor não parece disposta a migrar automaticamente para Lula apenas porque surgiu mais uma crise envolvendo o sobrenome Bolsonaro. A esquerda talvez continue subestimando o tamanho do desgaste acumulado de seus próprios símbolos.
Enquanto isso, o cidadão comum segue tentando entender como um país com mais de 210 milhões de habitantes consegue chegar sempre às mesmas encruzilhadas. Talvez porque a política brasileira tenha se tornado uma espécie de remake infinito: mudam os personagens secundários, mas o roteiro continua rigorosamente igual.
E assim o eleitor vai caminhando para mais uma eleição histórica — como todas as outras foram. Uns votarão com convicção. Muitos votarão tapando o nariz. Outros sequer sairão de casa. Mas praticamente todos carregando a mesma sensação: a de que o Brasil virou um país onde a esperança precisa disputar espaço com o cansaço.

