
O encontro entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos na Casa Branca teve vasta cobertura da imprensa. Afinal, ali está supostamente um grande foco de tensão política. Se Donald Trump fez o que fez com Nicolás Maduro, a princípio todos os aliados do ex-ditador venezuelano estão nessa incômoda berlinda.
E o que essa vasta cobertura da imprensa mostrou sobre o tão aguardado encontro? Nada. Ou melhor: mostrou uma coletânea de especulações obtidas pelo buraco da fechadura dos vazamentos mais ou menos confiáveis. Tudo aconteceu nas sombras.
Não deixa de ser curioso que a imprensa brasileira dedique tanto espaço a um evento que, na última hora, foi sonegado à própria imprensa. A decisão de barrar toda e qualquer cobertura jornalística antes, durante e depois da reunião entre Lula e Trump foi atribuída a um pedido do governo brasileiro — segundo uma dessas fontes pelo buraco da fechadura. E não foi isso que dominou as manchetes na tal vasta cobertura. Incrível…
Ao contrário: a imprensa barrada agiu como mulher de malandro. Mesmo sem o direito a uma entrevista coletiva dos dois presidentes após a reunião, ou, pelo menos, a uma oportunidade de fotografá-los juntos e fazer-lhes perguntas breves antes da reunião, boa parte dos veículos saiu cantando vitória para Lula.
O presidente brasileiro não poderia sonhar com uma mídia mais compreensiva. Fez seu stand-up sozinho na Embaixada do Brasil em Washington, ajeitou sua “narrativa” sobre o encontro fechado do jeito que bem entendeu e emplacou manchetes de todos os tipos: mandou Trump sorrir mais, disse que o colega americano ainda vai fazer um pix etc. E a decisão grave de barrar a imprensa no grande encontro? Deixa pra lá.
Recentemente, um desses levantamentos “científicos” que produzem estatísticas engraçadas anunciou o Brasil superando os EUA no ranking de liberdade de imprensa
Isso foi manchete na grande mídia — essa mesma que teve de se contentar com migalhas especulativas sobre o encontro na Casa Branca após a blindagem pedida pelo governo do Brasil, o país-sensação da liberdade de imprensa.
Esse coquetel de especulações e deduções aproximadas — típico de quando o jornalismo é barrado na porta — tem dado conta de que o encontro Lula-Trump foi marcado pelo empresário Joesley Batista. Então, além de driblar o circuito da imprensa, aparentemente o Brasil adotou também um circuito diplomático “alternativo”, por assim dizer. Sai o Itamaraty, entra a picanha. Muito saudável para a democracia.
Mesmo depois de todos esses sinais de movimentação subterrânea, a vida seguiu seu curso no faz-de-conta da grande mídia: Lula é a resistência democrática contra o fascismo imaginário. Jornalistas são impedidos de discutir um projeto de lei, e moradores são obrigados a retirar faixas de suas varandas. Mas está tudo normal.
Fonte: Gazeta do Povo

