29 de abril de 2026
Luiz Philippe de Orléans

São Paulo calado, Brasília satisfeita

Pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT) afirmou ter “bons nomes” para vice em SP e cita Marina Silva e Simone Tebet como opções. (Foto: José Cruz/Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Ficou evidente, a meu ver, que Simone Tebet e Marina Silva não representam, de fato, os interesses do estado de São Paulo. Embora liderem pesquisas eleitorais para o Senado, ambas não são oriundas do estado, tampouco defendem pautas alinhadas às necessidades concretas dos paulistas.

O que observo é que suas trajetórias e posicionamentos orbitam, sobretudo, em torno dos interesses de Brasília — desse sistema centralizador que, há anos, sustenta-se em uma máquina pública inchada, burocrática e corroída por esquemas que se infiltram em ministérios, autarquias e estatais.

Esse modelo, profundamente enraizado, sobrevive da manutenção de privilégios e da perpetuação de uma lógica que pouco dialoga com as demandas reais de quem produz riqueza. E é justamente aí que reside a questão central: por que o paulista insiste em optar por representantes que não vivem sua realidade? A resposta, ainda que incômoda, parece simples — falta compreensão sobre o mecanismo de drenagem de recursos que penaliza São Paulo há décadas.
O fluxo invisível que empobrece o estado mais rico

Tenho defendido há anos, e reitero agora com mais clareza: São Paulo é sistematicamente prejudicado por políticas públicas definidas em Brasília. Recursos gerados aqui são desviados para um orçamento central que raramente retorna de forma proporcional. E, quando retornam, muitas vezes o fazem de maneira opaca, envolta em estruturas pouco transparentes e suscetíveis a desvios.

O resultado dessa equação é paradoxal. Um dos estados mais ricos do país enfrenta problemas básicos em áreas essenciais, como saúde, educação e saneamento

Ao mesmo tempo, os recursos que deveriam impulsionar melhorias locais não parecem produzir os efeitos prometidos em outras regiões. Ou seja: não beneficiam adequadamente nem quem envia, nem quem recebe — evidenciando um sistema ineficiente e, possivelmente, capturado por interesses escusos.
A vocação acolhedora que se tornou vulnerabilidade

O paulista, historicamente, sempre demonstrou abertura e acolhimento. Essa disposição em abraçar o “de fora” é, sem dúvida, uma virtude. No entanto, quando transposta para o campo político sem o devido critério, transforma-se em fragilidade. Já elegemos lideranças que não têm raízes no estado, reforçando um padrão que enfraquece nossa capacidade de articulação e defesa.

Se não houver uma mudança de postura — um movimento que valorize representantes comprometidos com a realidade local — São Paulo continuará refém de decisões externas. Não se trata de isolamento, mas de equilíbrio. Representatividade não é exclusão; é coerência com as demandas de quem vive, trabalha e sustenta o Brasil.

Memória histórica, um chamado à ação

Não é a primeira vez que São Paulo assume protagonismo em momentos decisivos da história nacional. Basta lembrar a Revolução Constitucionalista de 1932, símbolo da luta por autonomia e legalidade. Ou ainda a influência do estado em episódios que moldaram o posicionamento do Brasil em cenários internacionais e internos, como na Era Vargas, em que Getúlio foi pressionado a apoiar os aliados.

São Paulo também foi berço de figuras históricas que mudaram ou sedimentaram a liderança brasileira:

José Bonifácio de Andrada e Silva – Nascido em Santos, é o Patriarca da Independência, figura central na formação do
Estado brasileiro.
Barão do Rio Branco – Um dos maiores diplomatas da história do Brasil, responsável pela consolidação de fronteiras.
Oswaldo Aranha – Presidiu a Assembleia Geral da ONU em 1947 e teve papel importante na política externa brasileira.
Eduardo Gomes – Figura destacada da Força Aérea Brasileira e da política nacional.
Henrique Teixeira Lott – Conhecido pela defesa da legalidade democrática em 1955.
Euclydes Zenóbio da Costa – Atuou na Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial.
Prudente de Morais – Primeiro presidente civil do Brasil, natural de São Paulo.
Campos Salles – Outro presidente paulista, importante na estabilização econômica da Primeira República.
Washington Luís – Último presidente da República Velha, também paulista.

Essa lista não esgota o tema, mas demonstra que essa herança não pode ser ignorada. Ela revela uma vocação para liderança que precisa ser resgatada — não por nostalgia, mas por necessidade.

Entre o centralismo e a autonomia

Hoje, observo um fenômeno semelhante ao debate entre globalismo e nacionalismo, mas em escala interna. Estados abrem mão de sua autonomia em favor de um poder central que decide, arrecada e redistribui sem eficiência ou transparência. Governadores e representantes, por sua vez, limitam-se a discursos protocolares, sem enfrentar o cerne do problema.

Essa postura alimenta um ciclo de dependência e conformismo. Ao final, resta ao cidadão apenas a frustração — muitas vezes expressa nas redes sociais, mas raramente traduzida em escolhas eleitorais coerentes com esse descontentamento.
O preço da omissão

Se o paulista continuar ignorando essa realidade, estará, na prática, legitimando o modelo que o prejudica. Não haverá espaço para reclamações legítimas quando as escolhas reiterarem os mesmos padrões. Representatividade exige responsabilidade — e começa no voto.

Acredito, no entanto, que ainda há tempo para uma inflexão. Um despertar que valorize lideranças comprometidas com o estado e dispostas a enfrentar estruturas consolidadas. Se São Paulo voltar a compreender sua força, não apenas redefinirá seu próprio destino, mas poderá inspirar um movimento mais amplo em todo o país.

Porque, no fim das contas, Brasília só permanece forte quando São Paulo permanece em silêncio.

Fonte: Gazeta do Povo

Luiz Philippe de Orléans

Luiz Philippe de Orleans e Bragança é deputado federal por São Paulo, descendente da família imperial brasileira, trineto da princesa Isabel, tetraneto de d. Pedro II e pentaneto de D. Pedro I, sendo o único da linhagem a ocupar um cargo político eletivo desde a Proclamação da República, em 1889. Graduado em Administração de Empresas, mestre em Ciências Políticas pela Stanford University (EUA), com MBA pelo Instituto Européen d'Administration des Affaires (INSEAD), França.

Luiz Philippe de Orleans e Bragança é deputado federal por São Paulo, descendente da família imperial brasileira, trineto da princesa Isabel, tetraneto de d. Pedro II e pentaneto de D. Pedro I, sendo o único da linhagem a ocupar um cargo político eletivo desde a Proclamação da República, em 1889. Graduado em Administração de Empresas, mestre em Ciências Políticas pela Stanford University (EUA), com MBA pelo Instituto Européen d'Administration des Affaires (INSEAD), França.

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