
Ficou evidente, a meu ver, que Simone Tebet e Marina Silva não representam, de fato, os interesses do estado de São Paulo. Embora liderem pesquisas eleitorais para o Senado, ambas não são oriundas do estado, tampouco defendem pautas alinhadas às necessidades concretas dos paulistas.
O que observo é que suas trajetórias e posicionamentos orbitam, sobretudo, em torno dos interesses de Brasília — desse sistema centralizador que, há anos, sustenta-se em uma máquina pública inchada, burocrática e corroída por esquemas que se infiltram em ministérios, autarquias e estatais.
Esse modelo, profundamente enraizado, sobrevive da manutenção de privilégios e da perpetuação de uma lógica que pouco dialoga com as demandas reais de quem produz riqueza. E é justamente aí que reside a questão central: por que o paulista insiste em optar por representantes que não vivem sua realidade? A resposta, ainda que incômoda, parece simples — falta compreensão sobre o mecanismo de drenagem de recursos que penaliza São Paulo há décadas.
O fluxo invisível que empobrece o estado mais rico
Tenho defendido há anos, e reitero agora com mais clareza: São Paulo é sistematicamente prejudicado por políticas públicas definidas em Brasília. Recursos gerados aqui são desviados para um orçamento central que raramente retorna de forma proporcional. E, quando retornam, muitas vezes o fazem de maneira opaca, envolta em estruturas pouco transparentes e suscetíveis a desvios.
O resultado dessa equação é paradoxal. Um dos estados mais ricos do país enfrenta problemas básicos em áreas essenciais, como saúde, educação e saneamento
Ao mesmo tempo, os recursos que deveriam impulsionar melhorias locais não parecem produzir os efeitos prometidos em outras regiões. Ou seja: não beneficiam adequadamente nem quem envia, nem quem recebe — evidenciando um sistema ineficiente e, possivelmente, capturado por interesses escusos.
A vocação acolhedora que se tornou vulnerabilidade
O paulista, historicamente, sempre demonstrou abertura e acolhimento. Essa disposição em abraçar o “de fora” é, sem dúvida, uma virtude. No entanto, quando transposta para o campo político sem o devido critério, transforma-se em fragilidade. Já elegemos lideranças que não têm raízes no estado, reforçando um padrão que enfraquece nossa capacidade de articulação e defesa.
Se não houver uma mudança de postura — um movimento que valorize representantes comprometidos com a realidade local — São Paulo continuará refém de decisões externas. Não se trata de isolamento, mas de equilíbrio. Representatividade não é exclusão; é coerência com as demandas de quem vive, trabalha e sustenta o Brasil.
Memória histórica, um chamado à ação
Não é a primeira vez que São Paulo assume protagonismo em momentos decisivos da história nacional. Basta lembrar a Revolução Constitucionalista de 1932, símbolo da luta por autonomia e legalidade. Ou ainda a influência do estado em episódios que moldaram o posicionamento do Brasil em cenários internacionais e internos, como na Era Vargas, em que Getúlio foi pressionado a apoiar os aliados.
São Paulo também foi berço de figuras históricas que mudaram ou sedimentaram a liderança brasileira:
José Bonifácio de Andrada e Silva – Nascido em Santos, é o Patriarca da Independência, figura central na formação do
Estado brasileiro.
Barão do Rio Branco – Um dos maiores diplomatas da história do Brasil, responsável pela consolidação de fronteiras.
Oswaldo Aranha – Presidiu a Assembleia Geral da ONU em 1947 e teve papel importante na política externa brasileira.
Eduardo Gomes – Figura destacada da Força Aérea Brasileira e da política nacional.
Henrique Teixeira Lott – Conhecido pela defesa da legalidade democrática em 1955.
Euclydes Zenóbio da Costa – Atuou na Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial.
Prudente de Morais – Primeiro presidente civil do Brasil, natural de São Paulo.
Campos Salles – Outro presidente paulista, importante na estabilização econômica da Primeira República.
Washington Luís – Último presidente da República Velha, também paulista.
Essa lista não esgota o tema, mas demonstra que essa herança não pode ser ignorada. Ela revela uma vocação para liderança que precisa ser resgatada — não por nostalgia, mas por necessidade.
Entre o centralismo e a autonomia
Hoje, observo um fenômeno semelhante ao debate entre globalismo e nacionalismo, mas em escala interna. Estados abrem mão de sua autonomia em favor de um poder central que decide, arrecada e redistribui sem eficiência ou transparência. Governadores e representantes, por sua vez, limitam-se a discursos protocolares, sem enfrentar o cerne do problema.
Essa postura alimenta um ciclo de dependência e conformismo. Ao final, resta ao cidadão apenas a frustração — muitas vezes expressa nas redes sociais, mas raramente traduzida em escolhas eleitorais coerentes com esse descontentamento.
O preço da omissão
Se o paulista continuar ignorando essa realidade, estará, na prática, legitimando o modelo que o prejudica. Não haverá espaço para reclamações legítimas quando as escolhas reiterarem os mesmos padrões. Representatividade exige responsabilidade — e começa no voto.
Acredito, no entanto, que ainda há tempo para uma inflexão. Um despertar que valorize lideranças comprometidas com o estado e dispostas a enfrentar estruturas consolidadas. Se São Paulo voltar a compreender sua força, não apenas redefinirá seu próprio destino, mas poderá inspirar um movimento mais amplo em todo o país.
Porque, no fim das contas, Brasília só permanece forte quando São Paulo permanece em silêncio.
Fonte: Gazeta do Povo

