
A nota de Toffoli chegou como chegam as notas oficiais: bem passada, sem vincos e com cheiro de gabinete. Palavras escolhidas à pinça e verbos no tempo certo. Falou do Banco Master como quem atravessa um salão de porcelanas — passos curtos, olhos à frente, mãos atrás do corpo. Nada de tropeços. Nada de ruídos. Disse o que precisava dizer para que a frase se sustentasse em pé: que não havia irregularidades conhecidas, que tudo se dera dentro da legalidade e que o Judiciário não se move por insinuações. A nota cumpriu o rito. Foi técnica. Foi limpa e sobretudo, defensiva.
Ele não explica as gestões que fez em janeiro com as provas, com a custódia e o acautelamento do conjunto probatório gerado na segunda fase da Operação Compliance Zero. Por exemplo, a operação que teve como objeto Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, que foi sócio de seus irmãos no Tayayá Resort Hotel, em Ribeirão Claro, no Paraná
Não explica. Por que que ele decretou sigilo absoluto. Não é segredo de justiça, é sigilo absoluto! Só ele e seu gabinete tem acesso a esse material. Ele não explica porque tirou a Polícia Federal da parada, e aí só sob pressão, recuou e, finalmente abriu para a Polícia Federal o acesso ao material, mas só para peritos escolhidos por ele.
É muito controle do processo e ele não explica porque fez isso. A nota dele tem 11 itens. Encerradas as investigações, será possível examinar os casos para uma eventual remessa às instâncias ordinárias, sem a possibilidade de que se apontem nulidades em razão de não absorvência do foro, por prerrogativa de função ou de violação da ampla defesa devido ao processo legal.
Mas há coisas que ele guardará consigo, que ficará na “sua delegacia”, porque ele se comportou como um delegado e como um investigador nesse processo. Terá aprendido com Alexandre de Moraes?. Se há razões para o fatiamento, se há razão para que uma parte seja remetida à primeira instância e o restante ficando com ele, por que não foi feito antes? Na prática, ele escolherá o que vai ficar com ele, sob a gestão do seu gabinete e de sua delegacia, e o que seguirá para a primeira instância.
Estou falando aqui, entre outras coisas, do material apreendido de Daniel Vorcaro: celular, conteúdo, prova, diálogos talvez e relações apontadas, no celular de Daniel Vorcaro, de Fabiano Zettel e dos demais. Essa é a grande questão, aquilo que não irá para a primeira instância.
Mas agora, o que a nota não disse?
Não disse por que o assunto exigia uma nota oficial. Não disse de onde vinha o incômodo que a tornava necessária. Não disse se havia relação anterior, proximidade institucional, coincidências de agenda e encontros fortuitos ou planejados. Não disse se havia conflito de interesses — palavra que, curiosamente, nunca atravessa textos muito bem penteados.
Não disse o que o cidadão comum queria ler: contexto. Não disse quando começou, como se deu, quem apresentou quem, quem ligou para quem. Não disse se houve cautela redobrada por se tratar de um banco, desses que vivem de confiança — esse ativo invisível que some no primeiro sussurro mal explicado.
A nota falou de legalidade, mas evitou a aparência. E aparência, como se sabe, não é detalhe: é matéria-prima da confiança pública. A nota preferiu o ser jurídico ao parecer republicano.
Ao explicar o necessário, confirmou o desnecessário. Ao fechar as portas do texto, abriu as janelas da desconfiança. Porque toda nota que responde apenas ao que pergunta a si mesma termina interrogando quem a lê.
No fim, o Banco Master ficou citado; o Judiciário, protegido; e o leitor, convidado a preencher os vazios. E vazio, quando não se explica, vira eco. E eco, quando insiste, vira barulho.

