23 de abril de 2024
Colunistas Walter Navarro

Um bom homem bom

Infelizmente está virando um mantra: mais um, menos um. Agora, foi a vez, dia 27, do amigo Jorge Mene. E de Covid, que eu achava ser 19, 20, 21, no máximo 22, mas que continua matando em 2023.

De repente, dia 20 de junho, soube que estava internado, em estado grave, no Socor, hospital que não dá informações por telefone. Acionei um amigo médico que, com outro, recebeu as informações que procurávamos. Sim, na linguagem dos profissionais e dos mortais, ele estava muito mal. Dia seguinte, uma pequena melhora, ontem, o desfecho triste, fatal, cruel.

O irônico é que, na internação, Jorge avisou aos amigos do WhatsApp, em duas versões: “Boa Noite pra você. Estarei fora do ar por uns 8 dias. Estou entrando no cti pra tratar de uma pneumonia. Quando sair, aviso”. Está fora do ar e do tubo de oxigênio para sempre. Saiu do CTI, mas não como queria; como queríamos.

“Bom dia, estarei fora do ar, por uns 10 dias. Estou no cti do Socor, tratando de uma pneumonia. Estarei de volta, quando estiver bem. Até breve, se DEUS quiser”. Deus quis, mas foi sua companhia, ao lado direito…

Estranhamente, muita gente recebeu suas mensagens, até minha irmã, menos eu. Fui ler as últimas que ele me enviou. Tinha uma piada muito boa, um vídeo do Juca Chaves muito bom e outro sobre a Margareth Thatcher, melhor ainda; provando que meio pingo é letra. Pelo menos para quem sabe ler, quando não podemos mais escrever uma palavra inteira.

Troquei o título desta crônica. Era “Salve Jorge”, virou “Um bom Homem bom” por explicar melhor toda a gentileza, educação, seriedade. Todo o humor (de salão) e toda a tolerância que habitavam Jorge.

Sua marca registrada era ligar para todos, amigos ou nem tanto, no aniversário de cada um. Aposto que tinha uma agenda, um caderninho, verde. Lá em casa, por exemplo, ligava para mim, meus quatro irmãos e minha mãe, sem falhas, todo ano, há 22 anos.

Não fumava, bebia muito menos que moderadamente, caminhava, cuidava da saúde; corpo e mente. Só exagerava, às vezes, na churrascaria Baby Beef. Um troglodita de rodízio! E ainda brincava, como Obelix devorando um javali, que nunca abriria uma Delicatessen, mas uma “Brutalitessen”.

Não vou ficar aqui desfiando outros detalhes e qualidades, mesmo porque não era “amigo de farra”, não tenho tempo e preciso ir ao velório, daqui a pouco. Quem o conheceu sabe que ele era muito mais.

Porém, por “coincidência”, esta semana compartilhei um texto muito apropriado, no Facebook, porque cai como uma luva em Jorge. Vale a pena procurar a íntegra, no Google.

“O bilionário nigeriano Femi Otedeola, foi perguntado por um apresentador de rádio: – Senhor, o que você fez de mais feliz na vida? O empresário respondeu: – Passei por quatro estágios e finalmente entendi o significado da verdadeira felicidade.

Otedeola fala sobre os quatro estágios, os três primeiros envolvendo seu poder e as riquezas que não lhe mostraram a verdadeira felicidade.

“Na quarta etapa, um amigo me pediu cadeiras de rodas para cerca de 200 crianças deficientes. Comprei imediatamente as cadeiras. Mas ele insistiu que eu fosse junto para entregá-las. Indo embora, uma das crianças agarrou minhas pernas. Abaixei-me e perguntei: – Precisa de mais alguma coisa?”.

“E ela me respondeu: – Quero decorar bem o seu rosto, para que, quando eu o encontrar no Céu, possa reconhecê-lo e agradecê-lo mais uma vez. A resposta não me deixou apenas feliz, mas mudou completamente minha atitude em relação à vida. Pergunto: pelo que você será lembrado depois de deixar essa vida? Alguém desejará ver seu rosto novamente no Céu? Tente passar por essa vida tocando outras vidas”.

E aí? Que tijolada de feltro, não? Se esta história não for verdadeira, deveria ser.

Então, se um dia eu morrer, como diriam os saudosos Roberto Marinho e Elizabeth II; depois de meu pai, eu gostaria de rever o Jorge, muito bem acompanhado.

Caro Jorge, você foi embora muito cedo, mas para te consolar, já sabia que não está perdendo grandes coisas, tipo estas pedras que estão aí atravancando nossos caminhos e que talvez fiquem por muito tempo.

PS: por exemplo, no mesmo dia 27, em vez de te homenagear, nosso Galo, mais uma vez, deixou a desejar. Mas estamos classificados, tá?

Walter Navarro, Belo Horizonte, 28 de junho de 2023

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *