7 de julho de 2022
Walter Navarro

Um bifinho no Zaire

Paris342
Amanhecera com vontade comer bifes…
Frase linda, da crônica ” O dactiloscopista e o cacófato”, de Carlos Heitor Cony, em 1998. Amanhecera… E o cara não acordou com vontade de comer bife, mas bifes! No plural!
E bolo de carne (meat loaf)? E rosbife, croquete? E carne enlatada? E carne de panela, desfiada? É horrível dependermos de carne, coisa selvagem e cruel, mas vício é vício, tem que respeitar. Desconfio seriamente de que um Danoninho não vale por um bifinho…
Por falar em carne, o Zaire ainda existe ou é uma ilusão como o sábado?
Por falar em Zaire, acabo de ver, neste 12 de setembro, desvirginando o dia 13 – número cabalístico e de sinistra memória – a cassação do mandato de Eduardo Cunha por 450 votos a favor e 10 contra. Dudu acaba de dar entrevista coletiva, exatamente às 00h06 da madrugada. A entrevista terminou com uma mulher gritando: “Obrigada pelo impeachment”. Este grito anônimo foi a única voz sensata da noite.
A sessão começou às 20h23. Eduardo ficou de costas para seus detratores que discursavam elogiando-o com um tudo: mafioso, psicopata, mentiroso, truculento, bandido, ladrão. O “Fora Cunha”, filho do genérico “Fora Temer”, também marcou presença.
Engraçado é ver a Clarissa, filha do Anthony Garotinho e petistas em geral xingando um colega de ladrão. O vigário condenando o Padre Nosso ao coroinha…
Neste mesmo 12 de setembro, Marcos Valério, o “Carequinha do Mensalão”, que pegou 40 anos de cadeia, sem delação premiada, voltou a dar depoimentos, desta feita abrindo a boca, num tipo de delação premiada tardia, tentando (tardiamente?) diminuir sua sentença de 40 anos de solidão na prisão.
Uma das primeiras e esfarrapadas desculpas de Marcos Valério, pra justificar o dinheirão que vazava, foi a venda de uns “boizinhos”… Carne… leite, muito leite. Mania que estes caboclos mamadores têm de colocar vaca, boi e bezerro no meio de seus brejos e lavanderias… E o pecuarista Bumlai, amigo do Lula? É muito Rei pra pouco Gado!
E no meio do 12 de setembro ainda teve a posse da ministra Carmen Lúcia como presidenta do STF, perdão, ela não gosta de presidenta, nem eu. Como ela mesma disse, “foi estudante e é amante da língua portuguesa”, eu também. Carmen é a nova presidente do STF. Qualquer “coisa” é melhor que o Lewandowski como qualquer “coisa” é melhor que a Dilma. E por falar em Dilma, Viva Eduardo Cunha! Merci, Dudu!
Desconfio seriamente de que um Danoninho da Carmen Lúcia vale milhões de bifinhos do Lewandowski.
E o Zaire? O nome é um licença poética para matar a pronúncia certa de   kikongonzere ou nzadi, “o rio que traga todos os rios”. Bonito. De 1971 a 1997, o Zaire virou  República do Zaire; final e tolamente, República Democrática do Congo.
No Conselho de Ética (sic) Eduardo Cunha disse que o batom na cueca, o dinheiro na Suíça, veio da venda de carne para países africanos como o Zaire, a República Democrática do Congo e o próprio Congo, ainda no final da década de 80.
Faz sentido porque no final da década de 80, o Zaire ainda era Zaire. No mínimo era República do Zaire. Tá explicado e absolvido. Obrigado, Eduardo, pelo Impeachment…
ps: Fonseca abriu o embrulho sem emoção e sem emoção constatou o conteúdo: a mão humana saiu de dentro, ensanguentada, os dedos ainda moles, as unhas de um roxo que era quase azul. Sua primeira reação foi óbvia e aborrecida: não era aquilo que pretendera desembrulhar. Mandara a empregada comprar meio quilo de filé, amanhecera com vontade de comer bifes, viu o embrulho em cima da pia, imaginou que ali vinha carne. Vinha, mas em outro sentido.
-Não poderei aproveitar esta carne para meus bifes. Tem muito osso e, além do mais, é carne humana, deve-se respeitar o semelhante, e o melhor respeito que se pode dedicar ao semelhante é não comer-lhe a carne. Além de sinal de respeito, é uma garantia social, não comendo a carne dos outros é possível que os outros não queiram comer a minha.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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