7 de julho de 2022
Walter Navarro

Recado de violências primaveris no verão


Em 1980, pouco depois da morte de Vinicius de Moraes, seu amigo, Rubem Braga, escreveu mais uma bela crônica, para homenagear o poeta. É assim que Rubem termina a crônica: “Eu ainda vou ficando um pouco por aqui (Ipanema, Rio de Janeiro n.d.r.) – a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus”.
Moças em flor, no Rio de Janeiro e a ilustração desta crônica, lembram-me outra linda “chansong” de Chico Buarque, “Carioca”: “De noite, meninas, peitinhos de pitomba, vendendo por Copacabana as suas bugigangas”.
Aconteceu comigo.
Juro, eu estava indo a outro lugar. Tarde quente na Savassi, aqui no forno de Belo Horizonte. Passava pela Baiana do Acarajé, lépido e faceiro, quando tive que parar e pegar uma mesa. Eram cinco da tarde. Só tinha uma mesa ocupada. Mas muito bem ocupada, por três lindas meninas, na flor de seus 20 e poucos anos. O visual era tão lindo e agradável que não resisti e sentei-me na mesa ao lado delas, de frente. Elas estavam à sombra, encarei o sol assim mesmo. Valia e valeu a pena.
Percebi que eram amigas de colégio, de longa data, porque as três faziam faculdade; uma de jornalismo, outra de direito e a terceira não consegui descobrir.
A jornalista era gata, mas a advogada era muito mais. A terceira também.
A jornalista, Duda – o único nome que ouvi – vestia uns negócios esvoaçantes, meio hippie. A advogada, super elegante e suculenta num shorts de tricô que dava vontade de desmanchar com os dentes. Lindo rosto, corpo escultural, perfeita. A terceira também, num legging (?) irresistível – acho este tipo de calça a coisa mais sensual, claro, é uma segunda pele, revelando todas as curvas e colinas.
Ao deparar-me com as três beldades, não esperava ouvir nada que prestasse, pareciam três “patricinhas”, tomando uma Brahma. Uma atrás da outra.
Solidário e solitário, de frente pro mar, pedi também uma Brahma.
Como não sou Beethoven, captei também a conversa das meninas.
Tinham nada de “patricinhas”. Fiquei encantado ao ver e ouvir o quão elas eram jovens e politizadas, principalmente a estonteante advogada.
A conversa começou com a jornalista. A advogada ficou calada um tempão. Só ouvindo e eu só vendo as pernas bronzeadas querendo sair do shorts laranja. A menina do legging de vez em quando falava.
Veio o papo das eleições.
Agucei os ouvidos.
Duda, a jornalista, disse que ia votar em Eduardo Campos.
A advogada disse: vou votar no Aécio Neves.
E começa a discussão.
Numa boa.
A advogada diz que o melhor presidente que o Brasil já teve foi Fernando Henrique Cardoso. Eu concordava com tudo o que ela falava e ela ia ficando mais linda, cada vez que ficava mais inteligente e antenada.
A advogada diz que chega de PT, que democracia é mudança, que o PT já está há 12 anos no poder e agora tem que largar o osso e deixar outros consertarem o país.
Aí elas começam a discutir sobre o Bolsa Família. A jornalista defendendo, a advogada argumentando e bem: “Quem criou o Bolsa Família, foi FHC, apenas tinha outro nome. É por isso, por causa desse assistencialismo é que o Brasil não vai pra frente, a economia está estagnada; quem recebe Bolsa Família não quer mais trabalhar. Basta olhar ao redor, tá faltando gente pra trabalhar em todo lugar”.
A jornalista discordava, sem argumentamos, mas levantava a bola pra advogada: “O Bolsa Família já cumpriu seu papel, ela deveria ser modificada, deveria ser temporária, deveria incentivar a procurar trabalho. O Bolsa família tinha que ter validade de um ano. Veja o que aconteceu com a Grécia, Portugal, Espanha. Quebraram exatamente por causa disso, o governo bancava tudo e ninguém mais queria trabalhar, só queriam viver do salário desemprego. Nenhum país aguenta isso, o Brasil já não está aguentando”.
E por aí foi.
Fiz uma foto das três, mas como tentei disfarçar, a imagem não ficou boa. Uma pena.
Impossível esquecer a opinião do professor chinês de economia, Kuing Yamang, que viveu na França: “A sociedade europeia está em vias de se auto-destruir. Seu modelo social é muito exigente em meios financeiros. Mas, ao mesmo tempo, os europeus não querem trabalhar. Só três coisas lhes interessam: lazer/entretenimento, ecologia e futebol na TV! Vivem, portanto, bem acima dos seus meios, porque é preciso pagar estes sonhos…
Os seus industriais deslocalizam-se porque não estão disponíveis para suportar o custo de trabalho na Europa, os seus impostos e taxas para financiar a sua assistência generalizada. Portanto endividam-se, vivem a crédito. Mas os seus filhos não poderão pagar ‘a conta’. Os europeus destruíram, assim, a sua qualidade de vida empobrecendo. Votam orçamentos sempre deficitários. Estão asfixiados pela dívida e não poderão honrá-la. Mas, para além de se endividar, têm outro vício: os seus governos ‘sangram’ os contribuintes.
A Europa detém o recorde mundial da pressão fiscal. É um verdadeiro ‘inferno fiscal’ para aqueles que criam riqueza. Não compreenderam que não se produz riqueza dividindo e partilhando, mas sim trabalhando. Porque quanto mais se reparte esta riqueza limitada menos há para cada um. Aqueles que produzem e criam empregos são punidos por impostos e taxas e aqueles que não trabalham são encorajados por ajudas. É uma inversão de valores. Portanto o seu sistema é perverso e vai implodir por esgotamento e sufocação. A deslocalização da sua capacidade produtiva provoca o abaixamento do seu nível de vida e o aumento do… da China!
Dentro de uma ou duas gerações, ‘nós’ (chineses) iremos ultrapassá-los. Eles tornar-se-ão os nossos pobres. Dar-lhes-emos sacos de arroz… Existe um outro cancro na Europa: existem funcionários a mais, um emprego em cada cinco. Estes funcionários são sedentos de dinheiro público, são de uma grande ineficácia, querem trabalhar o menos possível e apesar das inúmeras vantagens e direitos sociais, estão muitas vezes em greve. Mas os que decidem acham que vale mais um funcionário ineficaz do que um desempregado… (Os europeus) vão diretos a um muro e a alta velocidade…”.
PS: Este chinês está falando da Europa ou do Brasil? Melhor ir tomar outra Brahma.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.