7 de julho de 2022
Colunistas Walter Navarro

O Napoleão Bolsonaparte

Porque dia 10 de abril acontece o primeiro turno da eleição presidencial na França, quero apresentar a vocês o Bolsonaro francês, como já foi apelidado na França, claro, por aquele tipo de mídia… como o jornal “Le Monde” que pode ser chamado de “Le Globe”…

Esta apresentação ficou meses amadurecendo, com 1001 reviravoltas. Isso, depois de cinco catastróficos anos de Emmanuel Macron que, apesar de tudo, continua em primeiro lugar nas pesquisas. Pesquisas que se não mentem, são tão estranhas como as brasileiras de 2018. Nelas, Bolsonaro, enquanto atraia multidões Brasil adentro e afora, perderia para todo e qualquer candidato no segundo turno. O resultado, todos sabemos, desde outubro do mesmo 2018.

Em cenário de guerra na Europa, Putin pode ajudar, atrapalhar e influenciar a esquerda, o centro e a direita. A eleição de abril mostra-se fundamental para o futuro não só da França, como da Europa e do Ocidente. Por isso, guardem bem este nome: Éric Zemmour. Além da desvantagem nas pesquisas e das multidões em seus comícios, Zemmour tem muito em comum com Jair Bolsonaro, mas vai muito além do brasileiro. Zemmour é, realmente, um declarado candidato da extrema direita.
O Bolsonaro radical, Éric Zemmour, era, até dezembro, “apenas” um intelectual, jornalista e escritor, muito polêmico; em seus livros, colunas e na TV, onde ficou conhecido, amado e odiado pelo grande público.

É um profundo, orgulhoso conhecedor e defensor da história da França. Cansado de esperar uma Joana D’Arc ou Napoleão Bonaparte que “salve a França” de invasões invisíveis e da guerra de civilizações, lançou-se candidato com garras e dentes. Seu partido, fundado por ele, leva o sugestivo nome de “Reconquista”. Zemmour quer reconquistar a França de mil anos e do sacrossanto ex presidente, o general Charles De Gaulle, este estranho herói da Segunda Guerra Mundial que lutou a guerra com um microfone de rádio, em Londres.

Com o final da guerra, enchendo o saco de Churchill e Roosevelt, conseguiu tomar posse da França e hoje é um ícone da Resistência, da Segunda Guerra; exemplo de presidente e da própria República; referência política, inclusive de Zemmour.

Zemmour é o Bolsonaro das Cruzadas. Em vez de combater a esquerda brasileira e seus bandidos de estimação, luta contra a zumbi esquerda francesa, o cada vez mais nefasto, ridículo politicamente correto e principalmente a invasão do Islã e do islamismo, para ele a mesma coisa e fonte de todas as desgraças, a começar pelo terrorismo que explode bombas, incendeia igrejas, mata jornalistas, fuzila e degola franceses, nas ruas de Paris e no interior do país.

Seus adversários e inimigos o rotulam como racista, misógino, homofóbico, nazista, fascista, “taxista, dentista”, etc.

Acontece que Zemmour, cuja maior bandeira é a “imigração zero”, é judeu, filho e neto de imigrantes vindos da Argélia, norte da África árabe. Zemmour quer sua “douce et vieille France” de volta, a França do tempo das catedrais, não a de hoje, repleta de mesquitas. Terroristas e radicais islâmicos que se cuidem!

Zemmour quer, como Donald Trump, tornar a França grande de novo. A França primeiro, a França para os franceses. Além da imigração zero, barrando árabes e africanos; quer expulsar todos os presidiários e delinquentes estrangeiros, incluindo os que têm dupla nacionalidade. Quer também zerar todo auxílio social e médico aos estrangeiros. Tem pavor do governo europeu de Bruxelas e é bem capaz de deixar a união europeia como fez o Reino Unido.

Para Zemmour, se a “generosidade” da Liberdade, Igualdade e Fraternidade continuarem neste ritmo, em 2030, “a França será um grande Líbano”. Algoz da esquerda entreguista e da tradicional direita que promete e nada faz, Zemmour fala direto ao francês da gema e com isso tem arrastado multidões em seus comícios pelo país. Todos os dias ele seduz e conquista fortes aliados da mesma direita.

As pesquisas na França são do mesmo tipo que as brasileiras que colocam Lula à frente de Bolsonaro. Com a esquerda desmoralizada e esfacelada, em primeiro lugar está o atual presidente Macron. Em segundo, como em 2017, outra candidata de extrema direita, a mesma Marine Le Pen que, segundo Zemmour, é a candidata radical e ideal para dar um segundo mandato a Macron. Foi contra ela, no segundo turno, que “Lacron” aquele que não fede nem cheira a perfume francês, foi eleito em 2017.

E um dado muito interessante. O jornal “O Globo” mente até sobre as eleições na França. Hoje, sábado, 12 de março, contrariamente às pesquisas francesas, inventando dados de 9 de março, coloca Zemmour em quinto lugar. Em terceiro, ameaçando o segundo lugar de Marine Le Pen, estaria o desvairado e radical de esquerda, Jean-Luc Mélenchon. Um delírio!

Macron está na frente, mas o cenário resta aberto para, com certeza, um segundo turno entre Macron, Marine Le Pen ou o próprio Zemmour, claro. Macron é um enigma banana, mesmo cinco anos depois. Candidato fabricado pela mídia dos banqueiros e bilionários franceses; de 2014 a 2016, foi ministro da economia no governo socialista de François Hollande.

O socialista François Mitterrand e 14 anos depois, seu eterno opositor, Jacques Chirac, levaram 30 anos até a presidência. Macron chegou em oito meses… Pode isso Arnaldo?

Hollande, “devido às forças terríveis e ocultas”, nem tentou a reeleição, deixando o terreno livre para seu jovem, simpático e oportunista ministro, Macron. Mas Macron não é socialista. Seu partido é o “République en Marche”, “Em Marcha”, de centro.

Assim, foi fácil derrotar Marine Le Pen. Os franceses, que se acham filhos e inventores do Humanismo, têm pavor da extrema direita. E é aí que surgiu o nome de Éric Zemmour, candidato das vítimas da carestia e dos indecentes impostos e taxas; candidato daqueles que não mais acreditam em políticos, dos que percebem esta invasão árabe, islâmica e perigosa, há mais de 50 anos.

Zemmour quer proibir todo símbolo religioso em público. Zemmour, que se diz defensor da República e da democracia, prega, exige a “assimilação” dos estrangeiros.

“Em Roma, como os romanos”? Sim. Oui. Para Zemmour, quem quiser continuar na França tem que cultivar hábitos franceses. Deve comer, vestir-se, comportar-se e viver como franceses. Como seus pais e avós fizeram com ele, como ele faz com seus filhos.

Zemmour quer a França francesa. Seu lema é “Impossível não é francês”.

Quem quiser conferir, no YouTube, temos vários de seus comícios.

O último, dia 27 de março, terá transmissão ao vivo, no mesmo YouTube, em frente à Torre Eiffel, Paris.

Pessoalmente, neste início de 2022, faz exatamente 40 anos que conheci Paris, num intercâmbio. Já em 1982, sem querer, passeando de ônibus, fui parar num subúrbio pobre, ao norte de Paris. Parecia que eu estava num país africano ou árabe.

Não gostei do que vi, nem do que vejo, sempre que tenho a chance e felicidade de voltar lá. Gostaria muito de conhecer o Marrocos, Argélia, Senegal ou Costa do Marfim, mas quando vou à Paris, gosto de igrejas e catedrais, não de mesquitas. Vou à Paris pelos seus vinhos e queijos. Quibe e chá, tenho até no Brasil.

PS: Vive la France! Com Zemmour, claro!

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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