26 de maio de 2022
Walter Navarro

Nosso Homem em Havana


Com certeza é falta de sexo, falta do que fazer, inveja ou simples preguiça, o último “mimimi” nacional: Eduardo Bolsonaro embaixador do Brasil em Washington.
O genial Lula cunhou a expressão “nunca antes na História deste país…”. Bravata que virou piada e agora serve para o novo governo do novo Brasil: “Nunca antes na História deste país” encheram tanto o saco de um presidente, em tão pouco tempo, como fazem com Bolsonaro.
Pior: não são apenas os órfãos de Lula que pegam no pé de Bolsonaro, alguns seus eleitores também. Culpa do inverno!
No inverno fica todo mundo com medo do frio. Todo mundo com preguiça de sair de casa, de transar, de trabalhar, de pensar. Eu mesmo adiei este texto porque tinha coisa melhor a fazer; uma série islandesa na Netflix. Logo a Islândia, onde só tem gente feia, ovelha e gelo.
Mas o “mimimi” da hora me tirou do edredon, nesta linda e glacial manhã de sábado, quase meio dia.
Podem rir. Eu já pensei, seriamente, em ser diplomata. Hoje, até brinco. Do meu jeito, eu diplomata, ressuscitaria a Guerra do Paraguai em dois dias.
Era um sonho de adolescência. Me parecia chique, romântico, aventureiro, flanar pelo mundo. Aos 16 anos sonhava levar vida de Vinicius de Moraes (Los Angeles, Paris, Roma, Montevidéu), de João Cabral de Melo Neto (Barcelona, Madri e Marselha), de Rubem Braga (embaixador no Marrocos), todos eles escritores e “diplomatas”.
Dos três, acho, apenas Vinicius era diplomata de carreira… Acho… E sua carreira foi terminada covarde e abruptamente…
Mas o grande culpado pela minha vocação diplomática foi mesmo Pablo Neruda. Em seu clássico, “Confesso que Vivi”, ele conta, maravilhosamente, suas maravilhosas andanças pelo mundo.
Ah! Eu tinha também um motivo menos nobre: comer a Sônia Braga! Isso porque foi o que fez o “diplomata” desiludido, Cacá (Antônio Fagundes), na novela Dancin’Days.
Desisti da carreira diplomática por vários motivos. Cito os dois principais.
Primeiro, ao perceber que diplomata não tem opinião própria, mas a do governo ao qual serve; para mim, uma tortura. Vinicius de Moraes que o diga.
Segundo, “descobri” que os cargos mais importantes eram destinados a políticos, banqueiros, etc., e não aos diplomatas de carreira.
Era o famoso Circuito Elizabeth Arden, as embaixadas mais cobiçadas de sempre: Paris, Roma, Londres e Washington. Ou um cargo em Nova York. Lisboa e Madri entraram neste clube muito depois.
Diplomatas de carreira, formados no Instituto Rio Branco/Itamaraty, geralmente pegavam o Circuito Henê Maru: embaixadas na África, Ásia, etc.
Roberto Campos foi embaixador do Brasil em Londres e Delfim Netto, em Paris…
Há séculos, a diplomacia é mais econômica que política. Há milênios a língua diplomática deixou de ser a francesa.
“As indicações políticas para embaixadas eram mais comuns na Europa. O ex-presidente do Brasil Itamar Franco foi nomeado em 1995 embaixador do Brasil em Portugal pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Depois dele, ocupou o posto o ex-governador e senador por Santa Catarina Jorge Bornhausen, entre 1996 e 1998. Já entre 2003 e 2007, o ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Antônio Paes de Andrade, foi embaixador do Brasil em Lisboa”.
No capítulo Itamar tem uma anedota interessante. Como prêmio de consolação, por ter ajudado Lula em 2002, Itamar, em 2004, ocupou a embaixada mais linda do Brasil, o Palácio Pamphili, na Piazza Navona, Roma. E não gostou… Pediu o lugar de Paes de Andrade, em Lisboa. Por que? Porque não falava italiano, inglês, francês… Aliás, por isso mesmo, a embaixada de Lisboa era a favorita dos pacóvios de plantão.
Quisesse eu, com tempo e paciência, poderia discutir caso a caso. Quem era ou não diplomata, quem era ou não competente para tal.
Mas isso não tem a menor importância.
E daí se Eduardo Bolsonaro não é diplomata de carreira? O mais importante: É competente? É confiável? Fala inglês? Tem trânsito?
É, fala, tem e não quer comer a Sônia Braga, ainda bem.
E tem mais, Nosso Homem em Havana, o embaixador brasileiro em Cuba (2003-2006), nomeado por Lula, era o JORNALISTA Tilden Santiago…
PS: Bolsonaro, meu querido, quero ser embaixador em Paris.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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